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Programa

 

 

de Valores Humanos para o

 ENSINO SUPERIOR

 

O título deste programa foi inspirado no projeto "Cinco Minutos de Valores Humanos para a Escola", apesar da estrutura e metodologia diferenciada, considerando o público alvo.

O objetivo do programa é poder oferecer mais um material didático gratuito, que possa contribuir para a reflexão de valores básicos, colaborando com o fomento dessa temática também

no ENSINO SUPERIOR.

 

A universidade não deve desprezar a possibilidade de ampliar seu alcance oferecendo uma formação integral a seus tutelados.

Da universidade saem líderes diversos, formadores de opinião, profissionais das mais variadas áreas... e é preciso que possam agregar Valores Humanos às suas vidas e atividades.

É importante que aprendam a encontrar soluções pacíficas para a resolução de conflitos; pensar de forma global, respeitar os animais, a natureza, enfim, a vida em toda a sua amplitude.

Incluir o ensino de Valores Humanos no meio acadêmico, representa uma colaboração efetiva na formação de futuros profissionais e cidadãos, preparando-os para os papéis que irão desempenhar no mercado de trabalho, na vida social, no lar...

Entende-se, portanto, que VALORES HUMANOS é um tema que deve permear toda a grade educacional, do infantil ao superior.  

A Educação em Valores no ensino superior se faz cada vez mais necessária dentro de um contexto social onde a violência, o desrespeito e a insegurança distancia o cidadão de uma vida saudável, pacífica e feliz. O programa se propõe a contribuir para a transformação dessa realidade. A experiência conta com a proposta da Educação Biocêntrica, utilizando uma metodologia interativa e diversificada para um aprendizado prazeroso e enfoca valores como: Honestidade, Solidariedade, Respeito, Justiça, Amor, Não violência, Humildade, Gratidão, Responsabilidade e Assertividade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A humanidade é como um pássaro. Para levantar

 voo e permanecer voando, necessita ter as

duas asas do mesmo tamanho.

 

A nossa asa do "amor e da sabedoria" está precisando crescer rapidamente, a fim de dar sustentabilidade ao progresso.

 

 

  

 

 

 

 

 

Programa

 

Cinquenta Minutos de Valores Humanos

para o Ensino Superior

 

 

Rosita Capelo Fonteles

(E-mail: rosita_fonteles@hotmail.com)

  

Coordenadora do programa Cinco Minutos de Valores Humanos para a Escola, nos países de língua hispânica. Doutoranda em Psicopedagogia pela UAH (Universidad de Alcalá de Henares), Espanha; especialista em Educação Biocêntrica pela UECE (Universidade Estadual do Ceará); especialista em informática pela UFC (Universidade Federal do Ceará); licenciada em letras pela UECE, Brasil.

                                                            

Fortaleza – Ceará - Brasil

Jan/2012

 

 

 

 

 

Introdução

 

Apesar de todos os esforços dedicados aos valores humanos na educação, a equipe do programa Cinco Minutos de Valores Humanos para a Escola compreende que esse tema ainda precisa de mais atenção, entende a urgência e a importância de desenvolver essa temática também com os adultos. Em outubro de 2010 o programa foi apresentado no V IEDE (Quinto Encontro Iberoamericano de Educação), realizado em Guadalajara, Espanha, como uma proposta para a formação do professorado.

Hoje percebemos a necessidade de desenvolver essa temática não só na formação do professorado, mas também na formação de todo e qualquer profissional. Partindo do pressuposto de que são os nossos valores que nos conduzem, entendemos que o reforço de tais valores contribuirão positivamente para a formação dos alunos no meio acadêmico e posteriormente como profissionais e cidadãos conscientes, responsáveis e acima de tudo felizes.

É indiscutível a importância da educação em valores para as crianças, no entanto nessa época de globalização precisamos fomentar essa temática em dimensões globais. O ser humano vive em um constante processo de transformação e nesse processo o fortalecimento dos valores humanos é imprescindível às escolhas, para não seguirmos por caminhos que nos afastem dos nossos verdadeiros ideais.

Acreditamos que as universidades podem colaborar mais, fomentando questões que estimulem o desenvolvimento de valores humanos nos mais diversos aspectos. Conscientizando, colaborando com a sociedade no sentido de fortalecer em seus alunos valores como honestidade, solidariedade, respeito, justiça, amor, não violência, humildade, gratidão, responsabilidade e assertividade.

O Conselho Nacional de Educação tem se ocupado em incluir no currículo escolar a disciplina de Direitos Humanos, no entanto nós defendemos a inclusão da disciplina de Valores Humanos em todos os âmbitos educacionais, posto que os Direitos Humanos já estão inclusos nos Valores. Numa sociedade justa, respeitadora, honesta, não violenta, etc. os Direitos se tornam práticas naturais, fazendo parte de sua própria cultura.

A partir dessa consciência a equipe do programa "Cinco Minutos de Valores Humanos para a escola" procura contribuir com o desenvolvimento dessa temática entre os adultos, com o intuito de promover um movimento ao redor de questões que precisam ser despertadas no ser humano, para o desenvolvimento de valores básicos e universais através dos seguintes textos do programa “Cinquenta Minutos de Valores Humanos para o ensino superior”:           

 

 

 

Valores enfocados neste Programa

 

Honestidade

Solidariedade

Respeito

Justiça

Amor

Não violência

Humildade

Gratidão

Responsabilidade

Assertividade

 

 

1. Honestidade

“A honestidade não é somente verdade, e sim veracidade, o que inclui a intenção da verdade.” (J. Schrock)

 

Honestidade é o ato de ser honesto, de ser verdadeiro. É uma virtude que exige coerência e sinceridade no agir, sentir e falar; está implícita tanto na relação do sujeito com o mundo, como na relação daquele consigo mesmo. Ainda é considerada um dos principais valores morais do ser humano, também muito exigido, pois sempre queremos que os outros nos digam a verdade, que sejam sinceros, honestos, verdadeiros conosco.

E nós somos honestos? Sabemos ser verdadeiros com nós mesmos para podermos ser verdadeiros com os outros? A honestidade exige do ser humano humildade, condição necessária para ele reconhecer e assumir suas verdades. O autoengano é uma forma de ser desonesto com ele mesmo. Quando não age de acordo com os seus princípios e valores, termina sofrendo por suas incoerências.

A falta de honestidade assusta as pessoas, gera medo, insegurança nas relações, conduz à escuridão da vida presa a mentiras. A mentira destrói a liberdade da pessoa de ser ela mesma, afasta as amizades, é injusta, conduz à destruição das relações, enquanto a honestidade constrói, pois está diretamente ligada à autêntica justiça, à coerência, à liberdade,  que promovem  a paz e dão sentido à vida.

O caminho da honestidade exige a prática de respeitarmos e conhecermos a nós mesmos; exige sinceridade, promove a liberdade para nos expressarmos sem medo, exige o cumprimento de nossa palavra, jogo limpo, sem trapaças; exige, acima de tudo, verdade. Porém a impunidade, o êxito dos mentirosos e desonestos, a falta de reconhecimento dos que cumprem suas obrigações e a falta de estímulo dos que defendem honradamente seus princípios são como pedras, obstáculos para aqueles que pensam seguir o curso desse caminho. 

Observamos, na educação dos filhos, que honestidade muitas vezes é cobrada, mas não é dada, ou seja, os pais, consciente ou inconscientemente, não são honestos com os filhos, no entanto se julgam no direito de exigir deles que sejam honestos: “Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. O comportamento dos pais é incompatível com o que cobram dos filhos, e a honestidade exige coerência. Exemplos disso são os pais que bebem ou fumam e não querem que os filhos façam isso, são pais agressivos que não querem filhos violentos.

De acordo com Zamberlan (1999), quanto maior o estresse dos pais, a falta de competência para lidar com os problemas diários, as frustrações e as perdas, maior será a chance de os filhos desenvolverem problemas psicológicos. E os valores morais dos filhos seguem nessa mesma linha:  quanto maior for a fragilidade do valor honestidade dos pais, mais difícil será o fortalecimento desse valor nos filhos. Não podemos esquecer que os pais são as principais referências dos filhos.

E quanto à publicidade? Existe honestidade nela? A publicidade incita o consumo buscando atingir os sentimentos mais profundos do ser humano, guia-se pelos valores sociais, vincula o produto ao que o ser humano valoriza. Se o público valoriza beleza, é a beleza que será usada nos comerciais, vinculada a produtos e serviços; se valoriza as emoções, a publicidade vai explorar o contexto emocional e assim por diante, pois o objetivo é ganhar consumidores. Hoje se valoriza o bem-estar, então a publicidade procura vincular o objeto de consumo às sensações de bem-estar,  aproveitando-se dos nossos desejos de felicidade.

As propagandas de cigarro, por exemplo, nos passa mensagens de beleza, prazer, sucesso, alegria, enfim, tudo que possa incentivar o consumo desse produto. E muitas vezes nos deixamos influenciar pelos comerciais, mas o que realmente queremos? Será o produto ou esse bem-estar e todas as maravilhas que supostamente ele está oferecendo através de imagens, mensagens e falsas associações? Onde está a honestidade da publicidade? Em primeiro lugar, está no seu propósito de vender e não no bem-estar do consumidor como aparenta inicialmente.

Tentar enganar o próximo, a proposta de criar uma realidade falsa através da mentira, é desonestidade, e também um ato de brutalidade. Caracteriza relações de opressão, intimidação e medo, está associada à idéia de poder e domínio. A falta de honestidade se caracteriza também pelo desrespeito, pela negação da verdade e violação dos direitos do outro; conduz ao autoritarismo, à corrupção, à desigualdade social.

Pesquisas sobre o bullying enfocam a desonestidade nas escolas como parte da violência. Os alunos contam mentiras e disseminam boatos negativos sobre os companheiros. A escola, como instituição educativa, por sua vez também segue na linha da desonestidade, quando os professores  fingem que ensinam e os alunos fingem que aprendem. Quando Silvia e Salles (2010) revelam a desonestidade incidindo na violência na escola, informam sobre a deslegitimação do conhecimento e dos diplomas oferecidos nessas instituições de ensino, despertando nos alunos o sentimento de que o conhecimento e o próprio diploma são insuficientes para possibilitar uma ascensão social.

Com isso, as autoridades escolares também perdem a sua legitimidade, produzindo uma sensação de ausência de sentido e de imposição arbitrária das normas e atividades escolares. O que podemos observar é que a falta de honestidade no âmbito educativo  está contribuindo para a violência, gerando indignação e revolta.

Quando não somos honestos?  Partindo do pressuposto de que “achado não é roubado”, aquele que não tem seus valores morais bem definidos já acredita que pode justificar o ato desonesto de se apropriar do que não é dele. No Programa Cinco Minutos de Valores Humanos para a Escola, Nousiainen conta a história de uma criança que encontrou uma carteira e devolveu ao dono como exemplo de honestidade. A autora quer demonstrar que, desde criança, o ser humano precisa aprender a ser honesto. Em outra aula, enfoca que o suborno também é ato de desonestidade, assim como o roubo, e dá um exemplo de como a ganância também conduz à desonestidade.

Mas existem outros tipos de desonestidade que muitas vezes são minimizados pelos adultos e que envolvem questões como a impunidade, relacionadas a práticas do cotidiano. Quando tomamos a vaga de um idoso ou deficiente físico no estacionamento de um supermercado ou quando  furamos uma fila, estamos sendo desonestos também. Outros exemplos de desonestidade podemos observar em relação ao patrimônio público, quando um jovem danifica um banco de praça, quebra a lâmpada de um poste, danifica um telefone ou a porta de um banheiro público. Estes são atos desonestos, porque está sendo tirado o direito de todos de usufruírem daquele bem ou serviço em melhores condições. A noção de que “o que não é meu  nem é seu, não é de ninguém” precisa ser mudada; o que aparentemente não é meu e não é seu é de todos, por isso merece ser tratado com todo o cuidado.

Observamos nos poderes públicos uma total falta de honestidade, por causa do desvio de dinheiro de obras públicas, das palavras e promessas vazias dos políticos, da falta de impunidade, da corrupção, ou seja, das mentiras daqueles que deveriam dar exemplos de honestidade e preservar o que é do povo e que deveriam fazer o dinheiro dos impostos retornar à população em forma de benefícios, sem ser usado desonestamente em prol dos interesses pessoais.

Mas, se tudo tem limite, onde estarão os limites da honestidade? Lima (2011) nos convida a refletir sobre esses limites enfocando o lado nobre do fingimento. A ficção é honesta? E por que não, se é coerente com a sua proposta? O autor faz uma louvável reflexão sobre a boa intenção do fingimento. Na medicina, por exemplo, parece razoável que um médico não seja totalmente honesto com um paciente com uma doença terminal. Por mais que o médico tenha clareza sobre o pouco tempo de vida daquele paciente, ser totalmente honesto numa situação dessas pode inclusive abreviar ainda mais o tempo de vida do doente. Nesse caso, será que a honestidade se faz tão necessária? Ou é um fingimento necessário?

O autor cita outros exemplos em que o fingimento é necessário e destaca a importância da mentira, tema que merece aprofundamento. Os benefícios dos “fingimentos saudáveis”, ou seja, que não têm a intenção de prejudicar, mas de ajudar, são realmente alcançados quando a prudência não é suficiente? Será que o fingimento, quando percebido, não trará um dano maior que a verdade? Afinal, o fingimento é frágil, é superficial. Quando nos aprofundamos nele, chegamos ao fim de uma suposta realidade, uma mentira.

Então o fingimento é válido, desde que não fira ninguém? Como pode o fingido ter a certeza de que não vai ferir ninguém? E, quando fere, será que é capaz de medir o sofrimento daquele que ele pretendia enganar? Será que não se pode encontrar na verdade subsídios para evitar o sofrimento que pode causar um fingimento? Será que não estamos valorizando mais o fingimento que a honestidade? Nossos valores distorcidos não estão gerando sofrimento? Ou as nossas limitações e comodismo  nos conduzem aos falsos subterfúgios do fingimento?

Qual é o resultado de um processo que envolve fingimento? No fim, tudo termina em fingimento ou existe alguma possibilidade de se chegar à realidade quando há o fingir? Será que a verdade de fato não é suficiente para atender a todas as necessidades sem precisar da mentira? “A mentira tem pernas curtas”, então não podemos esquecer que o fingimento, a mentira, sempre tem um fim quando nos aprofundamos nele. Já a verdade, a honestidade, não tem pontas, não tem fim, é completa, integral e deve sempre ser reforçada e estimulada.

 

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 Sugestão para leitura complementar: Programa Cinco Minutos de Valores Humanos para a Escola, Nousiainen (2008). O programa está disponível em <http://www.cincominutos.org>. Neste endereço encontra-se o tema Honestidade enfocado para jovens e crianças nas seguintes aulas:

·        1º Módulo 2º Semestre: aula 37 – O roubo.

·       2º Módulo 1º Semestre: aula 6 – Ganância; aula 83 – Comunidade do Jacaré – Parte 12.

·       3º Módulo 1º Semestre: aulas 25, 27, 28 – Comunidade do Jacaré; aulas 63 e 64 – Sentir vergonha.    

 

  

 

Referências Bibliográficas

Galhadi, L. P. Comercialização do bem-estar: a estética da sedução publicitária. Famecos/PUCRS, Porto Alegre - Brasil, n. 24, 2010/2. Disponível em: <http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/famecos/article/viewFile/9031/6254>. Acesso em: 30 ago. 2011.

 

Lima, R. Um fingimento necessário: entre a ficção e a realidade. Revista Espaço Acadêmico/UEM, Maringá/PR - Brasil, n. 117, fev. 2011. Disponível em: < http://periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/view/12420/6549>. Acesso em: 28 ago. 2011.  

 

Nousiainen, S., 2008. Cinco Minutos de Valores Humanos para a Escola. Edições Caminhos de Harmonia. Fortaleza, CE – Brasil. Disponível em www.cincominutos.org. Acesso em 01/06/2011.

 

Silvia, J. M. A.; Salles, L.M. F. A violência na escola: abordagens teóricas e propostas de prevenção. Educar em Revista, Editora UFPR, Curitiba - Brasil, Vol. 2, nº especial 2, 2010.  Disponível em: <http://ojs.c3sl.ufpr.br/ojs2/index.php/educar/article/view/13657/14013>.  Acesso em: 28 ago. 2011.

 

Zaberlan, M. A. T.; Freitas, M. G.; Fukamori, L. Relações pais e filhos adolescentes e estratégias de prevenção a riscos. Paidéia, FFCLRP-USP, Rib. Preto - Brasil, dezembro, 1999. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/paideia/v9n17/05.pdf>. Acesso em: 30 ago. 2011.

 

 

  

 

 

2. Solidariedade

“Está se sentindo vazio? Preencha esse espaço com solidariedade. Saia desse buraco. Há muita gente precisando de você.” (Gabriel Chalita)

 

Solidariedade é o valor que nos conduz a partilhar  momentos de sofrimento e de dificuldade com o próximo, consiste em dar e receber ajuda, por isso é um valor que exige um contexto social; está nas relações, tornando-as mais humanas. A solidariedade facilita a construção de vínculos afetivos, contribui para o fortalecimento da autoestima, conduz a um sentimento de realização e satisfação pessoal, favorece o progresso e o bem-estar da humanidade.

 “Esqueçam-se de tudo e lembrem-se da humanidade”. Essa frase faz parte de um manifesto redigido pelos cientistas Albert Einstein e Bertrand Russell em 1955. A partir desse documento,  surgiu na comunidade científica um movimento pela paz mundial, quando um grupo de cientistas começou a se reunir todos os anos, para avaliar a situação mundial e lutar pela paz. D´Ambrosio (2011) nos conta:

O movimento passou a ser denominado Pugwash Conferences on Science and Wold Affairs. É dirigida por um grupo de 35 cientistas de todo o mundo que constituem o Pugwash Council, que é responsável por todas as declarações e pronunciamentos que resultam das conferencias. Tive a honra de pertencer ao Pugwash Council de 1988 a 1996. Em 1995 a organização recebeu o Prêmio Nobel da Paz, em reconhecimento de seus esforços em prol da Paz Mundial.

 

D´Ambrosio acredita que a solidariedade com o próximo é a primeira manifestação  do sentimento resultante do ato de fazer parte de uma sociedade. Entende que o avanço tecnológico e a pluralidade dos meios de comunicação de massa levaram as relações interculturais a dimensões verdadeiramente planetárias, mas, para se alcançar a paz nas suas multiplas dimenções, é necessário o fortalecimento de valores como o respeito, a solidalidade e a cooperação. 

A solidariedade se faz presente na vida desse professor de matemática. D´Ambrosio (2011) acrescenta: “A matemática está na base de todas as ciências e engenharias. Vejo, portanto, a minha responsabilidade em propor uma MATEMÁTICA PARA A PAZ”. Mas os benefícios da solidariedade vão além da matemática, se estendem a todas as áreas do conhecimento. Pesquisa informa como o trabalho voluntário de pacientes possibilita a retomada dos laços sociais num momento em que esses laços são ainda mais necessários. É uma contribuição tanto para quem ajuda como para quem recebe ajuda.

Andrade e Vaitsman (2002) revelam os resultados da solidariedade, observado nessa pesquisa realizada num hospital do Rio de Janeiro que recebia apoio de uma associação de voluntários atuantes dentro do hospital. Essa associação, de caráter voluntário, possibilita a reunião de grupos de pessoas em torno de objetivos comuns e a cooperação entre si.  As relações sociais contribuem para dar sentido à vida, e se observou que esse trabalho voluntário foi importante para o aumento da confiança pessoal dos participantes, da satisfação com a vida, e para o fortalecimento da capacidade dos mesmos de enfrentar problemas.

A solidariedade também pode ser observada num gesto, como na doação de órgão.  “... no âmbito dos direitos fundamentais, pode a pessoa agir de acordo com o entender que seja melhor para si, principalmente no que tange às decisões referentes a si, ao seu corpo, à sua individualidade” (TEIXEIRA &, KONDER, 2010). A legislação dos transplantes de órgãos está pautada em uma ponderação entre a liberdade e a solidariedade. O indivíduo deve ter liberdade para decidir sobre o seu corpo, mesmo depois da morte, e solidariedade para possibilitar a continuidade de outras vidas a partir da doação de órgãos. O problema é que essa  liberdade em que se pautava a lei foi questionada, pois essa ponderação prioriza a liberdade, mas não a do possível doador e sim a da família, ou seja, o gesto de solidariedade do doador era inútil se isso não se estende aos familiares.

Então, existia uma polêmica que se dava porque de um lado estava  a Lei de Transplante (art. 4º), que defende a doação de órgão só com a autorização da família, e de outro o Código Civil (art. 14), que defende a disposição gratuita do corpo depois da morte. De acordo com Teixeira e Konder (2010), diante dessa polêmica, prevaleceu o art. 14 do Código Civil, ou seja, o desejo do falecido. Esta é uma questão que nos leva a refletir sobre a nossa responsabilidade não só em relação a nossas atitudes de solidariedade, mas da importância de contribuir com o despertar dessa consciência nos outros, começando por familiares e amigos.

Na educação brasileira, há a Lei 9.394/96, que estabelece as Diretrizes de Base da Educação Nacional. O art. 2º enfoca como finalidade o pleno desenvolvimento do educando, inspirado nos princípios de liberdade e de solidariedade. O ensino fundamental objetiva a formação básica do cidadão incluindo o fortalecimento dos vínculos de família, os laços de solidariedade humana e a tolerância recíproca em que se assenta a vida social.  

Essas diretrizes reforçam também o compromisso da universidade com a sociedade, afirmando a necessidade de as universidades estimularem o conhecimento e prestarem serviços à comunidade. E é bom lembrar que o vínculo dos homens com a sociedade deve estar pautado numa relação de igualdade, considerando-se que não existe nada que os diferencie numa relação fraterna. Nessa perspectiva, devemos nos considerar irmãos, já que todos somos iguais em dignidade e direito.

Num país verdadeiramente democrático, a solidariedade faz parte da cultura. Fernandes e Montrone (2009) entendem que um dos objetivos da democracia é garantir a igualdade de direitos e de oportunidades. Sendo assim, uma sociedade democrática se faz com relações sociais libertadoras, na forma de ser, pesar e agir de seus cidadãos, com uma tolerância que tenha por fim contribuir para a boa convivência, com respeito às diferenças. No entanto precisamos também conhecer o limite entre a tolerância e a solidariedade.

A tolerância termina na solidariedade quando esta não aceita a injustiça, o sofrimento dos nossos semelhantes. Um dos limites da solidariedade está no ato do indivíduo de saber ajudar, sem alimentar vícios ou comportamentos prejudiciais, ou seja, está na condição de saber amar com sabedoria, como nos mostra a aula 12 – Ajudar os outros –  do 1º módulo do 2º semestre, constante do Programa Cinco Minutos de Valores Humanos para a Escola. Nousiainen, 2008, mostra de forma bem simples, esse limite entre a solidariedade e a tolerância, enfoca a importância de pensar com amor e amar com sabedoria. O pensamento com amor nos conduz à solidariedade, mas amar com sabedoria implica em um amor sem ingenuidade, implica em saber ser solidário.

A autora cita nomes de personalidades admiráveis, que se destacaram no cenário mundial pela solidariedade, assim como Madre Tereza de Caucutá, Martin Luther King Jr., Nelson Mandela, Gandhi, São Francisco, entre outros. Na educação, a solidariedade é destaque nas obras do educador brasileiro Paulo Freire, que tanto escreveu como vivenciou o valor solidariedade. Em sua obra “Aprendendo com a própria história”, podemos observar a solidariedade enfocada de diferentes formas.

De acordo Gadotti, 1997, enquanto algumas pessoas pensam que a sua liberdade termina quando começa a liberdade do outro, Freire dizia que a liberdade dele terminava quando terminava a do outro; se o outro não era livre, ele também não podia ser. Assim a solidariedade era vivida por Freire e um educador precisa ter esse valor incorporado no seu viver.

            Álvares (2011) nos convida a refletir sobre o valor solidariedade nos docentes em formação inicial; considera que esse valor regula a conduta em direção à interação benéfica de uns para com os outros, na satisfação de suas necessidades e no aperfeiçoamento humano. A formação desse valor inclui ajuda, cooperação e altruísmo, que, no contexto das relações, são aspectos reconhecidos e passam a ser parte importante da consciência do educador.

As experiências vividas por um docente se tornam realidade e vão se interiorizando, aos poucos vão fazendo parte dele. Sendo assim, os atos de solidariedade, as relações pautadas no amor e na fraternidade, são manifestações que se expressam em virtudes. Através das experiências positivas no desenvolvimento de atos solidários, a solidariedade vai ocupando o seu lugar na escala de valores dos futuros docentes, que guiarão suas condutas.

A solidariedade gera um sentimento de apoio mútuo, agradecimento, respeito às diferenças; promove a união e estimula as forças humanas para a conquista de objetivos comuns. Álvares (2011) defende que, na formação inicial do docente, é necessário desenvolver-se a solidariedade, para que seja legítimo portador desse valor, para que seja solidário autêntico. Se a solidariedade faz parte do estilo de vida do docente, ele poderá transmiti-lo a seus alunos. E Paulo Freire já dizia que educar exige coerência entre a teoria e a prática.

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Sugestão para leitura complementar: Programa Cinco Minutos de Valores Humanos para a Escola, Nousiainen, 2008. O programa está disponível em  <http://www.cincominutos.org>. Neste endereço, você encontra o tema Solidariedade enfocado para jovens e crianças nas seguintes aulas:

·        1º Módulo 2º Semestre: aula 12 – Ajudar os outros;  aula 76  –  Solidariedade; aula 99 – Altruísmo.  

·       2º Módulo 2º Semestre: aula 83 – Paulo Freire (Exemplos de solidariedade).

·        3º Módulo 1º Semestre: aula 24 – Comunidade do Jacaré; aula 68 – Solidariedade no trânsito.

 

Referências Bibliográficas

Álvares, N. R. Reflexiones sobre la formación del valor solidaridad en los docentes en formación inicial, en la carrera de educación primaria. Cuaderno de Educación y Desarrollo,  Cuba, vol. 3, n. 24, febrero, 2011. Disponível em:  <http://www.eumed.net/rev/ced/24/nra.htm>.  Acesso em: 05 set. 2011.

 

Andrade, G. R. B.; Vaitsman, J. Apoio Social e redes: conectando solidariedade e saúde. Escola nacional de saúde pública, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro - Brasil, outubro, 2002. Disponível em: <http://www.unifesp.br/grupos/fibromialgia/redes.sociais.pdf>.  Acesso em: 03 set. 2011.  

 

D´Ambrosio, U. A busca da paz: responsabilidade de matemáticos, cientistas e engenheiros. Unincor - Revista da Universidade Vale do Rio Verde, Três Corações, Minas Gerais - Brasil, V. 9, nº 1, Jan./Jul., 2011. Disponível em: <http://revistas.unincor.br/index.php/revistaunincor/article/download/78/pdf>. Acesso em: 05 set. 2011.  

 

Fernandes, S.; Montrone, A. V. G. Da tolerância à solidariedade: superação necessária ao exercício da cidadania, na construção de uma sociedade mais democrática. Educação em Revista, Marília, São Paulo – Brasil, V.10, n.2, Jul.-dez, 2009. Disponível em:<http://www2.marilia.unesp.br/revistas/index.php/educacaoemrevista/article/viewFile/652/535>. Acesso em: 04 set. 2011.

 

Gadotti, M., 1997. Lições de Freire. Revista da Faculdade de Educação. Vol. 23, n. 1-2, São Paulo-Brasil, Jan./Dec. 1997. Disponível em:

http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-25551997000100002&script=sci_arttext.

Acesso em 25/05/2011.

 

Nousiainen, S., 2008. Cinco Minutos de Valores Humanos para a Escola. Edições Caminhos de Harmonia. Fortaleza, CE – Brasil. Disponível em www.cincominutos.org. Acesso em 01/06/2011.

 

Teixeira, A. C. B; Konder, C. N. Autonomia e solidariedade na disposição de órgãos para depois da morte. RFD – Revista da Faculdade de Direito da UERJ, Rio de Janeiro – Brasil, Vol. 1,  nº 18, 2010. Disponível em: 

<http://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/rfduerj/article/viewFile/1357/1145>.  Acesso em: 02 set. 2011.

 

 

 

 

 

3. Respeito

“Quando o homem aprender a respeitar até o menor ser da criação, seja animal ou vegetal, ninguém precisará ensiná-lo a amar seu semelhante.” (Albert Schweitzer)

 

O respeito é considerado o mais básico dos valores, é ele que vai dar sustentação a todos os demais, portanto é um valor extremamente importante. Trata-se de um sentimento positivo de estima que se traduz em ações benéficas. A postura de quem sabe o significado do valor respeito é de humildade, pela consciência da grandeza do outro ou de algo, independentemente de profissão, status, sexo, idade, raça ou religião. Quem respeita a dignidade do ser humano o trata com atenção e consideração.

E por que devemos respeitar a dignidade do outro? Isso deve acontecer porque é a dignidade do ser humano que o caracteriza como tal. Na condição de humanos, temos direitos e deveres que devem ser respeitados. Os nossos direitos e deveres existem em função das nossas necessidades para vivermos e convivermos. Quando esses direitos não são respeitados, a pessoa é ferida em sua dignidade, em sua condição de ser humano. A dignidade de algo ou de alguém não se dá, nem se cria, porque ela faz parte dele, mas pode ser ferida, ultrajada ou violada quando seus direitos não são respeitados.

O respeito à vida não envolve somente os seres humanos, mas a tudo que faz parte da vida, isso inclui animais, plantas, rios, enfim, a natureza. Mas a morte também exige respeito. Uma pesquisa que se propõe a refletir sobre o direito a uma morte digna traz alguns questionamentos sobre o respeito à dignidade humana, enfoca princípios de sacralidade da vida. Será que existe respeito à dignidade humana na eutanásia ou na distanásia?

No tocante à eutanásia, a morte é provocada com o fim específico de abreviar a dor e o sofrimento da pessoa portadora de doença incurável. Na maioria dos países, é considerada uma prática criminosa, exceto na Suíça, Bélgica e Holanda; no Brasil, é considerada homicídio. Alguns estudiosos defendem essa prática por acharem que, em determinadas situações, é mais humano ajudar alguém a morrer com a prática da eutanásia.   

A distanásia significa o prolongamento exagerado do sofrimento de uma pessoa, ou seja, refere-se a uma morte lenta e sofrida. Almeida (2010) comenta: “O respeito pela dignidade da pessoa humana exige reconhecimento de que tratamentos inúteis ou fúteis apenas prolongam uma vida meramente biológica, sem qualidade alguma”. Mas os médicos têm a obrigação de aliviar a dor e o sofrimento mesmo estando o paciente em fase terminal, e é assim que defendem a dignidade da pessoa que está morrendo.

No Brasil, o art. 36 do Código de Ética Médica estabelece que, salvo por motivo justo, o médico não abandonará o paciente por ser este portador de moléstia crônica ou incurável e continuará a assisti-lo ainda que para cuidados paliativos. O respeito pelo ser humano, a benevolência e a justiça fundamentam o Código de Ética Médica no Brasil.   

Podemos observar o valor respeito em vários programas de valores humanos, assim como na proposta de educar para a cidadania, que implica em cultivar nos alunos valores como a liberdade de expressão, a solidariedade, a cooperação, entre outros. Apesar de compreendermos que a ação da escola é limitada, consideramos que as crianças precisam se desenvolver na educação em valores, conhecendo e vivenciando princípios humanos universais. 

O respeito a si mesmo e ao outro é enfocado por Rosa (2003), nas considerações sobre a contribuição da escola para a formação moral dos alunos. A autora acrescenta:

Na escola, a criança desenvolve, além da educação intelectual, sua educação moral fundamental para a construção do caráter do homem, pois o homem não tem, de forma inata, o sentimento do dever e da consciência moral, e a construção do caráter, se faz pelo ensinamento à criança dos deveres que deve ter em relação a si mesma e do respeito pelo direito do outro, o que implica tolerância, aceitação da diferença.

 

Seguindo o pensamento iluminista de autores como Kant, o homem é produto da educação. Então a escola é responsável pela formação do caráter da criança, é onde esta vai aprender a fazer uso da razão, adquirir autocontrole e aprender a seguir as normas sociais que possibilitam a convivência. Nessa perspectiva, cabe à escola promover o aprendizado do respeito, dentre outras virtudes morais.

Deve-se considerar também o respeito às crenças religiosas. É fato que a espiritualidade faz parte do ser humano e de suas necessidades, portanto é um direito que precisa ser respeitado. Mas respeitar não significa tolerar tudo. Será que estamos “respeitando” crenças ou aceitando comportamentos indevidos no âmbito religioso? Onde estará, no âmbito religioso, o limite entre o respeito e a tolerância? As igrejas estão respeitando seus fiéis?  

De acordo com Cury (2008), ao “respeitar todos os cultos e não adotar nenhum, o Estado libera as igrejas de um controle no que toca a especificidade do religioso e se libera do controle religioso”. Esta é uma atitude democrática que deveria prever as consequências desse tipo de liberdade. Se entendemos as religiões como diferentes caminhos que conduzem a Deus e que, como seres humanos, somos imperfeitos, compreendemos que nesses caminhos se encontram os mais diversos tipos de pessoas, tanto as que respeitam o próximo quanto as que não o fazem.

E como o Estado pode interferir em defesa dos direitos humanos quando as religiões e seus representantes não respeitam seus fiéis e exploram o sofrimento de pessoas necessitadas, abusando da liberdade de culto? Onde ficam os direitos humanos quando  inocentes são explorados por religiões ou em nome delas? O respeito à liberdade religiosa pode prevalecer diante do respeito aos seres humanos e a seus direitos? Que acontece quando respeitamos as religiões e nos omitimos em relação aos danos que podem causar aos fiéis? Será que esse “respeito” às crenças não está dando abertura à impunidade, servindo de escudo para crimes com foco religioso, que podem estar sendo cometidos contra a humanidade?

Valores humanos universais como o respeito, a justiça e a solidariedade deveriam alicerçar todas as igrejas e religiões. E considerando que o mundo espiritual não exige recursos materiais, as doações e os recursos arrecadados por essa entidades devem retornar à população, em forma de ajuda aos menos favorecidos. Mas qual é o órgão que fiscaliza a prestação de contas das igrejas? Em nome da dignidade da pessoa e do caráter igualitário dos seres humanos, não teríamos que considerar as condutas e definir limites para as práticas religiosas? 

No Brasil, segundo Cury, 2008, existe, “à luz da dignidade da pessoa humana, o repúdio a toda e qualquer forma de discriminação e a assinalação de objetivos maiores como a cidadania em nível nacional e os direitos humanos em nível internacional”. Em nome desses objetivos maiores, como a cidadania em nível nacional e os direitos humanos em nível internacional, não se deveria refletir mais sobre o respeito em relação à prática dessa liberdade religiosa?

Extraímos recursos para a nossa sobrevivência da natureza. E estamos respeitando a natureza? Isso não acontece quando a exploramos para o supérfluo, para um bem-estar imediato, sem medir as consequências dos nossos atos e sem prever a escassez desses recursos no futuro, como resultado dos desequilíbrios ecológicos que estamos promovendo. O resultado do desperdício de recursos naturais está no fato de que muita gente hoje vive na miséria, sobrevive com dificuldade, enquanto uma pequena parte da população do planeta desperdiça com o supérfluo. Teoricamente os mais pobres são os mais afetados, mas podemos observar que os danos causados pelos desastres naturais estão atingindo toda a humanidade.

Para Santos (2011), tanto a natureza como a capacidade autodestrutiva criada pela própria humanidade têm unido suas forças devastadoras para promover eventos catastróficos. Um dos fatores que mais contribuem para os desastres ecológicos é a degradação do meio ambiente.

O autor define os desastres naturais como fenômenos que provêm, direta ou indiretamente, da ação do homem, ávido da existência supérflua, individualista, egoísta e incapaz de olhar o seu entorno ou mais além de seus interesses desmedidos de lucro. Podemos perceber, com as mudanças climáticas, as consequências da destruição da natureza, mas não devemos pensar que a saúde do planeta é eterna. O homem não pode evitar os desastres naturais, mas pode tomar cuidado para que os eventos naturais não se convertam em desastres devido a suas próprias ações e omissões.      

O respeito pela natureza é fortalecido pelo saber cuidar dos seres vivos, saber preservar o ambiente; saber reconhecer elementos que contaminam a natureza, que poluem o ar e os rios; saber como tratar o lixo, separando-o para reciclagem; saber cuidar da limpeza; evitar o desperdício dos recursos naturais como a água tendo consciência da vida que a natureza nos oferece nas mais diversas formas. 

 

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Sugestão para leitura complementar: Programa Cinco Minutos de Valores Humanos para a Escola, da autoria de Saara Nousiainen, 2008. O programa está disponível em  <http://www.cincominutos.org>. Neste endereço, você encontra o tema Respeito enfocado para jovens e crianças nas seguintes aulas:

·       1º Módulo 1º Semestre: aula 72 – Respeito pelas leis.

·       2º Módulo 2º Semestre: aula 7 – Respeito pelos direitos dos outros; aula 10 – Natureza – Pássaros – Parte 2.

·       3º Módulo 1º Semestre: aula 1 – Animais - Parte 1; aula 2 – Animais - Parte 2; aula 7 – Respeitar a si mesmo; aula 76 – Respeito por si mesmo – Parte 1; aula 77 – Respeito por si mesmo – Parte 2.

 

 

 

Referências Bibliográficas

 

Almeida, M. S. Os profissionais da saúde e a terminalidade da vida: um estudo sobre os desafios éticos. Dissertação (mestrado), Universidade de Brasília,  Brasília - Brasil, nº, janeiro, 2010. Disponível em: <http://repositorio.bce.unb.br/bitstream/10482/8461/3/Disserta%c3%a7%c3%a3o%20M%c3%a1rcia%20Souza%20de%20Almeida.pdf>. Acesso em: 07 set. 2011.

 

Cury, C. R. J. Ensino religioso na escola pública: o retorno de uma polêmica recorrente. Revista brasileira de educação – ANPEd, Universidade Católica de Minas Gerais, Minas Gerais - Brasil, 2008. Disponível em: <http://www.gper.com.br/documentos/er_escola_publica.pdf>. Acesso em: 12 set. 2011.

 

Rosa, D. L.  Trabalho pedagógico e socialização: considerações sobre a contribuição da escola para a formação do sujeito moral. ANPEd (Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Educação). Universidade Federal da Bahia. Bahia – Brasil, 2005. Disponível em: <http://168.96.200.17/ar/libros/anped/1407T.PDF>. Acesso em: 08 set. 2011.

 

Santos, N. F. Un reto para la humanidad. Contribuciones a las ciencias sociales. Universidad de Málaga, Málaga – España, mayo,  2011.  Disponível em: <http://www.eumed.net/rev/cccss/12/nfs.pdf>. Acesso em: 20 set. 2011.

 

 

 

 

 

 

4. Justiça

Somente através do perdão a humanidade conseguirá vencer o desejo de vingança e passar a praticar justiça, verdadeiramente.” (Saara Nousiainen)

Como compreendemos o valor justiça a partir da epígrafe?

Em 1998, Daryl Atkins foi condenado à morte pelo assassinato de um homem em Virgínia, nos EUA. A defesa alegou insanidade mental do réu, e, por esse motivo, ele não poderia ser condenado à morte, só à prisão perpétua. Para ser poupado da execução, o condenado deveria provar que tinha um QI de até 70 pontos; Daryl comprovou um QI de 59.

Porém, em 2005, o Supremo Tribunal refez o teste, e foi comprovado que o QI de Daryl havia subido, passara para 76, por isso foi condenado à morte por injeção letal. Alegou-se que os estímulos que ele recebera na prisão, como leituras, encontros com os advogados,  processos, entre outras vivências, foram suficientes para despertar a sua inteligência, até que Daryl conseguiu alcançar pontos suficientes para torná-lo apto a morrer. Mas será que isso é justiça ou vingança? E será a pena de morte algo justo?

A justiça retributiva é inspirada no conceito de vingança, na idéia de “olho por olho, dente por dente”. Esse tipo de justiça se limita a impor uma pena ao condenado, como forma de compensar o dano, sem nenhum interesse em fazer com que a pessoa se conscientize do seu erro; funciona como um revide.

A justiça de transição está pautada no respeito ao direito e à verdade. Relacionada à aplicação de medidas retributivas como marco significativo de repúdio a determinadas práticas políticas, tem um caráter punitivo. Contempla a obrigação de investigar e punir crimes contra os direitos humanos. Consiste em um conjunto de esforços jurídicos e políticos para um sistema de governo democrático e sustenta uma concepção de justiça associada a períodos de mudanças políticas, caracterizada pelas respostas legais de confronto com as malfeitorias de um regime político, além de envolver ações de investigação contra os abusos e de visar à justiça e  à  paz para a sociedade.

Já a justiça restaurativa é diferente, enfoca uma justiça comunitária. Com esse conceito, entende-se que um delito é mais que uma transgressão à lei, pois fere as pessoas e suas relações, portanto só através da reparação do dano e das relações é que se consegue recuperar a vítima e a sociedade. É um modelo de justiça participativo, em que os sentimentos e as necessidades tanto individuais como da comunidade são considerados; visa à restauração dos relacionamentos, à reparação do dano sofrido pela vítima, à conscientização e à responsabilização do transgressor, assim como ao fortalecimento da comunidade.

Conforme o modelo de justiça apresentado por Caro e Segla (2007), o “perdão é em essência uma mostra de superioridade moral da vítima que renuncia à vingança”. O processo da justiça restaurativa favorece o perdão, mas não o implica, pois o perdão é algo de ordem individual, que somente corresponde à vontade da vítima e nenhum processo nem a comunidade pode pressionar ninguém a perdoar.

A Justiça deve procurar dar a cada um aquilo que é seu por direito, ou que lhe é merecido; também é a faculdade de julgar segundo as leis, o direito e a razão e requer imparcialidade na interpretação do ordenamento jurídico. É ainda um valor humano que se revela na vida social e que deve contribuir para a evolução da vida em sociedade, em favor da preservação dos direitos humanos, da boa convivência e do bem comum. Portanto quem não perdoa e guarda sentimentos negativos, de raiva ou revanche pode ser uma pessoa mais vingativa do que justa.

Nery (2009), define justiça como:

o conjunto de características e valores, mutáveis em razão da evolução social, pelas quais o Estado (de forma coercitiva), e os demais membros da sociedade organizada (de forma crítica), se balizam para criar e seguir regras que, isonomicamente, visem a manutenção dos pactos sociais estabelecidos para a criação e manutenção da sociedade, sendo um elemento essencial para a obtenção do bem comum. Justiça é, entre outros valores, virtude, liberdade, igualdade, racionalidade, boa vontade, boa fé, humildade ante a finitude da vida humana, moderação nas ações, honestidade e aplicação de sanções àqueles que descumprirem suas obrigações perante a sociedade.

 

E como podemos compreender a justiça social? Este conceito está pautado na concepção de distribuição justa visando garantir o equilíbrio nas relações sociais. Portanto objetiva o bem comum, promove a realização de uma vida digna para todos, ou seja, está pautado na dignidade da pessoa humana, na igualdade, na liberdade, no respeito às necessidades do ser humano.

Para ser justos, necessitamos do conhecimento; para contribuir com a justiça social, necessitamos, antes de mais nada, conhecer a sociedade, a nossa realidade, reconhecendo nossas debilidades e fortalezas sociais. Na área educacional, por exemplo, muitos defendem uma educação igualitária partindo do princípio de que hoje todos têm acesso a computadores, internet, a mais informações, considerando os avanços tecnológicos dos últimos anos. Porém não podemos esquecer que no mundo, nessa nossa casa mais ampla, muitas crianças ainda não têm nem acesso a escolas. E isso é justo se somos todos iguais em dignidade?

É justo desperdiçar alimento enquanto tantos ainda passam fome? É justo estragar água? É justo gastar com o supérfluo e com o luxo enquanto muitos não têm o mínimo necessário para uma vida digna? É justa a desigualdade social? É justa uma educação que favorece a distância entre as classes sociais? É justo julgar o outro pela aparência? É justo criticar alguém sem conhecer a sua realidade? Será que é fácil ser justo?

O papel do juiz exige, sobretudo, o desejo de ser justo sempre, de querer fazer justiça; exige também a imparcialidade de um raciocínio objetivo e por último competência, conhecimento dos fatos para uma análise prudente dos acontecimentos. Mas, considerando que qualquer um pode errar pelos mais diversos motivos, devemos contar com a humildade para sermos justos, aceitando nossos erros e limitações, assumindo as responsabilidades provenientes de nossas atitudes. 

Os pais, por exemplo,  antes de julgar o comportamento dos filhos, deveriam refletir sobre sua contribuição para esse comportamento; da mesma forma os professores em relação a seus alunos. O sucesso e o fracasso dos alunos dependem em grande parte do trabalho do professor, assim como o conceito que eles vão construindo sobre justiça e justiça social. Para isso, é importante também que a formação do professorado esteja vinculada à comunidade, à sociedade, já que a educação tem por finalidade o bem de todos.

Flores (2011) compreende que justiça é dar a cada um o que lhe corresponde, e a eles  corresponde viver em uma democracia e estar de  posse de todos os bens que garante a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Isso seria o justo. O injusto é o desumano, que existam comunidades e indivíduos marginalizados, submersos na pobreza e na ignorância, e, como se fosse pouco, é injusto que os façam acreditar que são livres e iguais a seus governantes e aos ricos que os oprimem.

Daniels (2011) nos ajuda a compreender como a justiça pode contribuir com a melhora da saúde  pública e me levou a refletir sobre certas questões. É justa a distribuição de recursos na área da saúde? É justo que quem mais precisa de atendimento médico não o tenha? É justo a indústria farmacêutica não responder por seus atos quando compromete a saúde pública? É justo que, quanto melhor o nível econômico e educacional de uma pessoa, mais longa e mais saudável seja sua vida?

O autor afirma que “evidências recentes sugerem que, quanto mais profunda a desigualdade econômica existente em uma sociedade, maior é o gradiente de desigualdade em saúde”. E lamenta a ausência de movimentos sociais bem organizados capazes de enfrentar tais desigualdades, de reclamar pela saúde pública mostrando a necessidade de mudanças básicas.

E como está a justiça na área da construção civil? Será que é justo a sociedade pagar pela falta de qualidade dos serviços da construção civil? É justo se pagar várias vezes pelo mesmo serviço porque ninguém se responsabiliza pelo que faz? É justo uma vida ser perdida pelos péssimos serviços de uma instalação elétrica ou pelo desmoronamento de uma parte da construção? É justo um imóvel com poucos anos de uso ser considerado velho pela qualidade do serviço da construção habitacional? É justo ninguém fazer nada para tentar conter essas atrocidades da construção civil que causam sérios danos à população?   

Em resumo, a vida solicita justiça a todo momento, nas mais diversas situações, em casa, no trabalho, na rua, nas igrejas, etc. E, se não nos preocuparmos em ser pessoas mais justas, dificilmente evoluiremos como seremos humanos e teremos uma vida melhor, pois a ausência de justiça só favorece situações de conflitos e gera ainda mais sofrimento para a humanidade.

Podemos observar, em diferentes setores da nossa sociedade, o valor justiça ser solicitado. Necessitamos cobrar do Poder Legislativo medidas capazes de refrear e minimizar os atos criminosos, mas não será só sobrecarregando os tribunais ou por meio da punição que solucionaremos o problema. Precisamos educar para a justiça, contribuir com ela, querer e tentar, acima de tudo, ser cada vez mais justos.

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Sugestão para leitura complementar: Programa Cinco Minutos de Valores Humanos para a Escola, da autoria de Saara Nousiainen, 2008. O programa está disponível em <http://www.cincominutos.org>. Neste endereço, você encontra o tema Justiça enfocado para jovens e crianças nas seguintes aulas:

·       1º Módulo 1º Semestre: aula 18 – Como mudar o planeta.

·       2º Módulo 2º Semestre: aula 85 – Justiça X Vingança.

·       3º Módulo 2º Semestre: aula 43 – Paz na família.

 

Referências Bibliográficas

 

Almeida, E. S.; Torelly, M. D. Justiça de transição, estado de direito e democracia constitucional: estudo preliminar sobre o papel dos direitos decorrentes da transição política para a efetivação do estado democrático de direito. Revista eletrônica da Faculdade de Direito, Porto Alegre - Brasil, Vol. 2, num. 2, p. 36-52, julho/dezembro, 2010. Disponível em:

<http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/sistemapenaleviolencia/article/view/8111/6041>. Acesso em: 01 out. 2011.

 

Caro, H. A. S B; Segla, F.M. Justicia Restaurativa: una forma de construir paz. Fundación Paz y Bien – Pontifica Universidad Javeriana, Cali - Colombia.  2007. Disponível em:

<http://portales.puj.edu.co/ccpvirtual/Catedra%20Colombiana/Sesion3_Sept%2020/CajadeHerramientasJUSTICIARESTAURATIVA.pdf>. Acesso em: 28 set. 2011.                

 

Daniels, N. Porque a justiça é importante para a nossa saúde. Idéias, Campinas, São Paulo – Brasil. n. 2, nova série, 1º semestre. 2011. Disponível em: <http://www.ifch.unicamp.br/ojs/index.php/ideias/article/download/472/383>. Acesso em: 29 set. 2011.

 

Flores, R F. Justicia y derechos humanos. Política y Cultura, Universidad Autónoma Metropolitana – Xochimilc, Distrito Federal, México, n. 35, PP 27-45, 2011. Disponível em:

 <http://redalyc.org/src/inicio/ArtPdfRed.jsp?iCve=26718442003>.  Acesso em: 28 set. 2011. 

 

Nery, D. C. O que é Justiça, afinal? Revista Autor, novembro, 2009. Disponível em:

<http://www.revistaautor.com/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=522:o-que-usti-afinal&catid=15:direito&Itemid=44>.  Acesso em: 21 set. 2011.

 

Zerchner, K. M. La formación del profesorado y la lucha por la justicia social. Revista Electrónica Interuniversitaria de Formación del Profesorado. , Zaragoza – España, Vol.14. núm. 12,  2011. Disponível em:

<http://redalyc.org/src/inicio/ArtPdfRed.jsp?iCve=217019031012>. Acesso em: 21 set. 2011.  

 

 

 

 

 

5. Amor

“Amar não é aceitar tudo. Aliás: onde tudo é aceito, desconfio que há falta de amor.” (Vladimir Maiakóvski)

 

O amor pode ser compreendido de diversas formas, como afeição, compaixão, misericórdia, paixão, querer bem, satisfação, desejo, entre outras, mas a definição mais popular está relacionada à maneira como uma pessoa pode se relacionar com  outra, ou com algum objeto. O amor é considerado uma das maiores conquistas do ser humano.

De acordo com a Real Academia Espanhola, o amor é um sentimento intenso do ser humano, que, partindo de sua própria insuficiência, busca por necessidade o encontro e a união com o outro. É um sentimento de uma pessoa por outra, o qual atrai e procura reciprocidade no desejo de união, o qual alegra e dá energia para conviver, comunicar-se e criar.

Esses conceitos se referem basicamente ao amor entre casais, mas existem vários tipos de amor: entre familiares, entre amigos, ao trabalho, à arte,  a objetos, ao próximo, aos animais,  à natureza, etc. Há quem diga que existem tantos tipos de amor quanto pessoas na face da Terra. Mas existem também ideias distorcidas acerca do amor que são decorrentes de desequilíbrios emocionais e que podem resultar em suicídio, crimes passionais e sofrimento psíquico. 

Essas ideias  algumas vezes são provenientes da dependência emocional das pessoas, que está vinculada ao medo do abandono, da solidão e da separação, à negação da liberdade, à chantagem emocional, à angustia e ao sofrimento. Essa situação caracteriza-se por comportamentos submissos, de insegurança, por dificuldade de colocar limites e por sentimento de culpa.

O amor a Deus, ao divino, ao criador muitas vezes também é distorcido pelos interesses religiosos. Vincula-se o amor e a espiritualidade à prosperidade financeira de falsas igrejas ou de seus representantes, usa-se o nome de Deus para extrair dinheiro de pessoas fragilizadas por doenças ou pelos problemas que se apresentam diante da vida. Os fiéis terminam sendo explorados, vitimas de um amor que não existe, de igrejas mercenárias, de homens mesquinhos e sem escrúpulos, que mentem em nome de um falso Deus. O verdadeiro amor se expressa na bondade, na justiça, na liberdade, na igualdade, na busca pelo bem de todos.

Apesar da subjetividade e das infinitas dimensões do amor, a ciência busca meios de se aproximar dessa realidade através de instrumentos de medida, como afirma Vicente (2011). O autor considera que, se o amor existe, também deve existir uma forma de medi-lo, de conhecer a sua quantidade e intensidade. Já que encontramos forma de medir a inteligência, por que não encontramos meios de medir o amor?

As relações amorosas vêm sofrendo alterações ao longo do tempo, e, para compreender melhor essas mudanças, devemos também entender os interesses que permeiam os relacionamentos. Antigamente os casamentos eram arranjados pelas famílias de acordo com seus interesses, que por sua vez estavam pautados no status e na situação financeira dos envolvidos, e pouco se ouvia falar em separação.

De acordo com Schmitt (2011), “na sociedade contemporânea, o que está em foco são indivíduos instáveis, no campo do amor, voláteis, frágeis. Homens e mulheres aparecem enfatizando mais a questão da necessidade profissional, uma boa remuneração e o foco de uma futura autonomia”. O autor compreende que a principal característica dos relacionamentos atualmente é o individualismo, que vem recebendo apoio do capitalismo e do avanço tecnológico.  E faz referência aos relacionamentos on-line,  pautados no que as pessoas aparentam ser e não no que realmente são.   

Na dureza das relações familiares atuais, o amor se tornou condicional. A mamãe ou/e o papai é capaz de dizer que não gosta de um(a) filho(a) que não obedece, ou seja, coloca uma condição no amor para que as crianças correspondam às expectativas dos pais. Então, se as crianças não fazem tudo certinho, não receberão amor, não serão amados? Por que condicionar o amor? Para educar? E isso é educação? Para conseguir o que quer, acreditando ser o melhor para os filhos, pais tentam direcionar a vida daqueles e muitas vezes terminam por gerar sérios problemas. Bazilli (2011) diz que consciência familiar “é a imagem que os nossos pais têm e esperam de nós. Podemos passar a vida sem sermos nós mesmos, fixados a este programa, a este projeto que nossos pais nos deram”.

Os pais devem ter o cuidado de não condicionar o amor que sentem pelos filhos, como, por exemplo, quando dizem “eu amo o meu filho porque ele é estudioso” ou “eu não posso amar um filho que não me obedece”. O filho precisa entender que vai ser amado sempre, estudando ou não, obedecendo ou não. Quer dizer que, se uma criança não conseguir tirar boas notas por qualquer motivo justo, deve entender que perderá também o que tem de mais sagrado, o amor dos pais? Isso é justo? Será que existe alguma condição que seja suficientemente justa para se negar o amor aos familiares?

O amor deve ser incondicional, ele sempre deve existir acima de qualquer coisa. Isso não significa que, em nome do amor, os pais devem criar seus filhos sem limites, imersos na permissividade, porque os limites também fazem parte do amor nas relações familiares. Facchin (2011) declara que, ao não saber dizer “não”, os pais terminam privando os filhos de desenvolver a tolerância, então o “não” dado com amor é uma forma de preparar os filhos para o mundo. O amor é sempre necessário até mesmo para que os filhos entendam o porquê dos “nãos”. 

O maior sustentáculo de uma estrutura familiar é o amor, portanto precisamos acima de tudo saber amar. E esse amor, por sua vez, faz com que os filhos se sintam aceitos, valorizados e seguros. Os filhos podem também não aceitar alguma atitude dos pais, podem ficar decepcionados, tristes e protestar, mas não deixar de amá-los pelo mesmo motivo, pelo amor incondicional que deve permear as relações familiares.

Silva, 2008, aporta que Paulo Freire prezava tanto pelo amor na educação que ele até admitia uma tia não amar os sobrinhos, o que não podia admitir era uma professora não amar seus alunos. A educação para Freire era a dialógica. Em sua concepção, o diálogo é um ato de amor. Entendia que o conhecimento era construído a partir do amor que sentimos pelo que desejamos conhecer, isso também inclui o modo como as pessoas se tratam amorosamente, no ato de conhecer. 

O pensamento e a experiência de Paulo Freire se encontram com a de Célestin Freinet, educador suíço. Ambos lutaram por justiça social, foram perseguidos e presos, acreditavam que a educação deveria despertar o que já existe latente no ser humano. Mas o amor pela profissão é possivelmente o que mais identifica esses dois educadores, a busca amorosa por um futuro melhor através da educação.  

O conhecimento serve para nos proteger também dos falsos amores, pois a ingenuidade no amor é porta que se abre à maldade dos homens. Devemos amar sem nos afastar da realidade, sem fechar os olhos para as limitações do ser humano. O amor, assim como a fé, não precisa de intermediário, mas precisa de cuidado. A nossa capacidade de amar é imensa, e esse amor pode ser desenvolvido a partir das nossas boas ações, dos bons sentimentos, dos pensamentos positivos, do nosso esforço para nos tornarmos seres humanos melhores.

Muitos já sabem que o amor é a luz da vida, é fonte de alegria e vitalidade; o que alguns ainda não entenderam é que os maiores benefícios do amor chegam primeiro para quem o sente e não para quem o recebe. Por isso, para alguns, o desejo de ser amado ainda é maior que o de amar. Mas, se é bom ser amado, melhor ainda é amar, viver o amor, senti-lo o mais intensamente possível, e isso só depende de nós.

Portanto devemos amar, alimentar diariamente o sentimento de amor dentro de nós, pelas pessoas, pelos animais, pela natureza, pela vida. Façamos crescer o amor dentro de nós; estimulemos, fortaleçamos, ampliemos esse sentimento no nosso interior. Essa é a energia capaz de despertar o que pode existir de melhor dentro de cada um, é fonte de transformação. É através do amor que vamos fazer desse mundo um lugar melhor. 

Como podemos desenvolver o amor? Faremos isso escolhendo amar, priorizando o amor em nossa vida, agindo como quem ama, com bondade, tratando o próximo com respeito, atenção e generosidade, como quem cuida de um irmão querido. Aprendemos a amar a partir do desejo de amar, observando quem ama, procurando conhecer a forma de pensar de quem ama, aproximando-nos de quem ama, até um dia sentir a certeza e a intensidade do verdadeiro amor dentro de nós.

 

 

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Sugestão para leitura complementar: Programa Cinco Minutos de Valores Humanos para a Escola, da autoria de Saara Nousiainen, 2008. O programa está disponível em  <http://www.cincominutos.org>. Neste endereço, você encontra o tema Amor enfocado para jovens e crianças nas seguintes aulas:

·       1º Módulo 1º Semestre: aula 74 – Amor universal; aula 77 – Amor para a Terra.   

·       2º Módulo 1º Semestre: da aula 86 à 89 – Amor.

·       2º Módulo 2º Semestre: aula 87 – Tipos diferentes de amor; da aula 92 à 97 – Asa grade, outra pequena; aula 98 – Amor de verdade. 

 

Referências Bibliográficas

Bazilli, M. O corpo e suas couraças. Da repressão emocional à expressão do ser: um caminho transpessoal. CLASI – Centro Latino Americano de Saúde Integral. São Paulo – Brasil. 2011. Disponível em: <http://www.clasi.org.br/trabalhos/maristela.pdf>.  Acesso em: 04 out. 2011.

 

Facchin, T. H. J.; Calvetti, P. U. Quando o não é sinônimo de amor. Psico. Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre – RS – Brasil. PP. 16-22,vol. 42, nº 1, jan./mar. 2011. Disponível em: <http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/revistapsico/article/viewFile/5861/629>. Acesso em: 04 out. 2011.

 

Schmitt, S.; Imbelloni, M. Relações amorosas na sociedade contemporânea. Psicologia PT. Universidade Católica de Petrópolis, RJ - Brasil. Setembro, 2011. Disponível em: <http://www.psicologia.pt/artigos/textos/A0583.pdf>. Acesso em: 04 out. 2011.

 

Silva, A. A. Professora sim, tia não: cartas a quem ousa ensinar. Revista SER: Saber, Educação e Reflexão. Agudos, São Paulo – Brasil. Vol. 1, n. 2, jul.- dez, 2008. Disponível em:

 <http://www.revistafaag.br-web.com/revistas/index.php/ser/article/viewFile/83/pdf_56>. Acesso em: 04 out. 2011.

 

Vicente, C. Amor e construtos relacionados: evidências de validade de instrumentos de medida no Brasil. Repositório Institucional. Universidade de Brasília. Brasília - Brasil, Jun, 2011. Disponível em: <http://hdl.handle.net/10482/8330>. Acesso em: 03 out. 2011.

 

 

 

 

 

6. Não violência

“Uma das coisas importantes da não violência é que não busca destruir a pessoa, mas transformá-la.” (Martin King)

 

A não violência é um conceito de rejeição à violência, relacionado a poder e conflito, e enfoca movimentos sociais e políticos com objetivos pacifistas. É uma prática que consiste em não recorrer à violência, seja como forma de protesto ou como resposta a práticas violentas. É utilizada por motivos religiosos, éticos ou morais. Algumas pessoas  já aderiram à pratica da não-violência e lutam por seus ideais de forma pacífica.

Mahatma Gandhi foi considerado o pioneiro da prática da não-violência, por liderar o movimento da independência da Índia de forma pacífica, rejeitando todo tipo de violência. Em sua homenagem, o dia 2 de outubro foi considerado o dia internacional da não-violência, data em que se comemora o aniversário de nascimento desse pacifista. A relevância dessa data se centra no desejo de disseminar a mensagem da não-violência através da educação e da consciência pública por uma cultura de paz.      

Considerando o conceito da não-violência, não são os fins que justificam os meios, mas os meios que justificam os fins, ou seja, os fins são as consequências dos meios, dentro de um processo evolutivo de causa e efeito. Nesse contexto, a paz não pode ser obtida através da violência ou da repressão, e compreende-se que se o objetivo é a conquista de uma paz duradoura. Essa proposta precisa se estender aos lares, escolas, empresas, enfim a toda a sociedade.

Nos lares, a proposta da não-violência merece mais atenção tanto nas relações conjugais como nas relações entre pais e filhos. Nos últimos tempos, foram criados juizados especiais e leis em combate à violência doméstica, mais precisamente em defesa da mulher. Apesar de sua grande colaboração, não se pode dizer que tais medidas tenham sanado o problema da violência doméstica. Em geral, nesse quadro o homem é apontado como o pivô da violência contra a mulher, no entanto pesquisas enfocam também as agressões de mulheres contra homens e apontam as mães como as principais autoras dos maus-tratos às crianças, embora estas sofram agressão e punição psicológicas de ambos os pais. 

A violência contra a criança se apresenta de diferentes formas, pode ser de natureza psicológica, física, sexual, por negligência e abandono. Na concepção de alguns pais, essas formas agressivas de se relacionarem têm o propósito de corrigir erros, estabelecer normas de disciplina e educar. Esses pais, principais referências afetivas da criança, apresentam uma tendência a minimizar o problema da violência doméstica e contam muitas vezes com fatores que agravam ainda mais a situação, como problemas financeiros, estresse, dependência química, entre outros. 

Porém a valorização da vida nesse contexto é tão importante que autores chegam a enfocá-la como o oposto da violência. De acordo com Budó et al.(2010), “pode-se dizer que o contrário de violência não é a não-violência e sim a cidadania e a valorização da vida humana”. O autor também nos lembra que, ao começar com pequenas violências, os pais acabam por utilizar formas cada vez mais severas de agressão na resolução de conflitos familiares, e as consequências se refletem na vida da criança, favorecendo a baixa autoestima, o baixo rendimento escolar e distúrbios de conduta.

O baixo rendimento escolar, por sua vez, também pode estar relacionado a diversos outros tipos de violência no âmbito educacional. Alguns autores consideram que a maior violência cometida contra os alunos está na incapacidade de habilitá-los para enfrentar os problemas do mundo contemporâneo, apontam os professores como principais agressores, quando deveriam ser os protagonistas da não-violência na escola.

A violência simbólica é um tipo de violência difícil de ser percebida pelas vítimas; constitui práticas sutis de violência que se observam no cotidiano escolar. Refere-se à segregação, à exclusão, à indiferença, que muitas vezes são mascaradas pelos professores. Outras formas de violência simbólica são a imposição de conteúdos insignificantes para os alunos, a pressão baseada no poder de atribuir nota, a ignorância aos problemas dos alunos, as formas pejorativas ou agressivas de tratá-los, expô-los ao ridículo, quando não compreendem o conteúdo, enfim fatores que prejudicam o desenvolvimento educacional do aluno.

Scarlatto, Carlindo e Silva (2010) descrevem como  professores estão contribuindo com a violência no âmbito educacional. Os autores concluem que “Cabe-nos encontrar alternativas-formativas para formação inicial e continuada de professores/as em curso prazo e de longo alcance para que estes profissionais combatam a violência ao invés de fortalecê-la em meio escolar”.

No âmbito organizacional, as relações recebem pouca atenção diante dos interesses da empresa, privilegiando competitividade, custos e qualidade. Trata-se de um local onde é o ser humano que tem que se adaptar às máquinas, onde a violência também se manifesta de várias formas, inclusive fisicamente, com o intenso ritmo de trabalho, as lesões por esforço repetitivo, entre outras. A violência psicológica pode ser observada no incentivo à competitividade, como, por exemplo, nas homenagens a “funcionário do mês”, a “melhor vendedor”, etc.

Pesquisa enfoca, como formas de sofrimento no trabalho, o medo de acidente, a angústia do ser humano de não se sentir capaz de atender às exigências da empresa, o sofrimento proveniente de repetição contínua de atividade e o aborrecimento, o medo das agressões de usuários ou clientes, o medo da demissão. E tudo isso vai fazendo do homem uma vítima de seu trabalho. 

Soares e Moraes (2011) enfocam a violência nas organizações destruindo a capacidade das pessoas de definir e realizar interesses coletivos. Os autores destacam inclusive a colaboração dos trabalhadores no sofrimento e na injustiça infligidos a outros, favorecendo a banalização do mal, fazendo do trabalho um “mal necessário”. 

Na sociedade, a violência se apresenta na forma de homicídios, acidentes e suicídios; está pautada na desigualdade social, na injustiça, no menosprezo de valores humanos em função do consumismo e dos lucros, no culto à força e ao poder.  A questão da violência contra as crianças, as mulheres e os idosos vem sendo retratada em pesquisas sobre  mortalidade. Da mesma forma que a arma de fogo, as bebidas alcoólicas e outras drogas, a televisão também é considerada como um fator de risco para a violência social, quando em sua programação faz elogios à violência, banalizando as relações sociais, o sofrimento e a vida das pessoas.

Quanto à violência no trânsito, estudos informam que, nos países mais desenvolvidos, a maioria das mortes nesse âmbito é motivada por colisões de veículos; já nos menos desenvolvidos, as vítimas são principalmente pedestres e morrem por atropelamento, o que indica a falta de cuidado dos motoristas. Portanto a não-violência implica na sensibilização e no avanço de uma conscientização social dos fatores que promovem a violência na sociedade. Somente  a partir disso, poderemos pensar em promover a não-violência, ou seja, com medidas pacíficas capazes de combater a violência.

Henry David Thoreau (1817-1862), em sua época, já defendia a ideia da não-violência. Foi um escritor estadunidense que defendeu a desobediência civil individual como forma de oposição legítima a um estado injusto. Ele era um abolicionista que realizava leituras públicas a partir das quais atacava as leis contra as fugas de escravos. Suas ideias sobre desobediencia cívica influenciaram a proposta da não-violência, através do pensamento político, e ações de personalidades que vieram depois dele, como Liev Tolstói, Mahatma Gandhi e Martin Luther King Jr.  

Liev Tolstói (1828-1910) foi um escritor russo pacifista, cujos textos e ideias iam de encontro às igrejas e aos governos, e defendia uma vida simples e em proximidade à natureza. Mahatma Gandhi (1869-1948) foi o advogado indiano que ficou conhecido como o maior defensor do princípio da não-agressão, forma não-violenta de protesto como um meio de revolução. Liderou a luta do seu povo pela independência da Índia, usou o jejum como forma de protesto, assim como o boicote de produtos importados, e encontrou forma de incluir as mulheres na luta pacífica pela indepedência.

Martin Luther King Jr (1929-1968) foi pastor estadunidense, um dos mais importantes líderes dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos, e pregou a não violência e o amor ao próximo. Em 1964, recebeu o Prêmio Nobel da Paz. Foi reconhecido pela sua liderança na resistência não violenta e pelo fim do preconceito racial nos Estados Unidos. Portanto o termo não-violência é comumente associado à luta desses homens.

A resiliência é um valor muito próximo ao da não-violência, pois consiste na capacidade das pessoas de superar ou minimizar os efeitos nocivos das situações difíceis. Implica em flexibilidade na criação de novas soluções para os problemas, em determinação e força para enfrentar as dificuldades, em saber procurar e pedir ajuda. A resiliência pode ser desenvolvida no decorrer da vida, especialmente durante a infância e a adolescência. Portanto é fundamental que os adultos saibam escutar os jovens e compreender o que sentem diante das situações complicadas e que ofereçam apoio para que estes se sintam seguros. Assim, os jovens poderão fortalecer tanto a suanautoestima como a resiliência.

Precisamos entender a importância da não-violência em todos os momentos, compreendendo que a violência não é da natureza humana, é um comportamento aprendido nos processos sociais entre pessoas, instituições e sociedades. Necessitamos buscar formas não-violentas para solucionar problemas e conflitos, ter a consciência de que é possível encontrar maneiras pacíficas de lidar com sentimentos negativos e com situações difíceis.

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Sugestão para leitura complementar: Programa Cinco Minutos de Valores Humanos para a Escola, da autoria de Saara Nousiainen, 2008. O programa está disponível em  <http://www.cincominutos.org>. Neste endereço, você encontra o tema Não-violência enfocado para jovens e crianças nas seguintes aulas:

·       1º Módulo 1º Semestre: aula 14 – Gandhi; aula 94 – Martin Luther King Jr.

·       1º Módulo 2º Semestre: aula 7 – Paz na família (parte 2); aula 8 – Paz na família (parte 3); aula 9 – Paz como objetivo de vida; aula 13 – Paz coletiva.            

·       3º Módulo 1º Semestre: da aula 92 à 98 – Cultura de paz.

 

  

Referências Bibliográficas

Budó, M.L.D. et. al. Violência e vulnerabilidade: um panorama da produção científica. Revista Saúde, Santa Maria, R. G. do Sul – Brasil. Vol. 36, N. 1, p. 15-22, Jan./Jun. 2010. Disponível em:

<http://cascavel.ufsm.br/revistas/ojs-2.2.2/index.php/revistasaude/article/viewFile/1492/1550>. Acesso em: 14 out. 2011.

 

Rocha, P. C. X.; Moraes, C. L. Violência familiar contra a criança e perspectivas de intervenção do Programa Saúde da Família: a experiência do PMF / Niterói (RJ, Brasil). Ciência & Saúde Coletiva [online], RJ. – Brasil, Vol. 16, n. 7, pp. 3285-3296, 2011. Disponível em:

<http://www.scielosp.org/pdf/csc/v16n7/28.pdf>. Acesso em: 12 out. 2011.

 

Scarlatto, E. C.; Carlindo, E. P.; Silva, M. Violências por professores/as contra seus/as alunos/as. Revista do Laboratório de Estudos da Violência           da UNESP, Marília, SP - Brasil. Edição 6, núm. 6, dezembro 2010. Disponível em:

<http://www2.marilia.unesp.br/revistas/index.php/levs/article/viewFile/1129/1017>. Acesso em: 12 out. 2011.

 

Soares, M. C. M.; Moraes, A. B. B. Conflitos nas relações de trabalho: a violência, o sofrimento e o autoritarismo com fatores nas organizações. UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), RJ – Brasil.  2011. Disponível em: <http://biblioteca.gpi.ufrj.br:8080/xmlui/bitstream/handle/1/83/SOARES%20%26%20MORAES%2c%202011.pdf?sequence=1>. Acesso em: 12 out. 2011.

 

Vicente, C. Amor e construtos relacionados: evidências de validade de instrumentos de medida no Brasil. Repositório Institucional, Universidade de Brasília, Brasília – Brasil, jun, 2011. Tese (Doutorado em Psicologia Social, do trabalho e das organizações).   Disponível em: <http://hdl.handle.net/10482/8330>. Acesso em: 03 out. 2011.

    

 

 

 

 

7. Humildade

“A humildade exprime uma das raras certezas de que estou certo: a de que ninguém é superior a ninguém.” (Paulo Freire)

 

A humildade é uma virtude de quem é humilde, daquele que sabe reconhecer e assumir seus erros, que demonstra ausência de orgulho, vaidade, arrogância, mas é verdadeiro, pois a humildade exige autenticidade. A humildade enfoca a modéstia, a simplicidade, o respeito, a cordialidade, entre outros valores; refere-se à qualidade daqueles que não tentam se projetar sobre os outros nem se julgam superiores.

Não é sinônimo de fraqueza, pobreza ou de ignorância com relação ao que somos, ao contrário, é consciência do que somos e principlamente do que não somos. Normalmente a humildade vem acompanhada de outras virtudes, como a caridade, a solidariedade, o amor, a verdade e a compaixão. Faz parte do saber ajudar, implica na colaboração com o próximo, sem invadir; contempla a coerência, a delicadeza e o bom senso do comportamento humano.  

A base da proposta educativa de Paulo Freire é o diálogo, que, por sua vez, só é possível a partir de uma postura humilde tanto por parte dos educadores como dos educandos; implica no saber ouvir, na troca de ideias para a construção de novos conhecimentos. Santos (2010), aporta que para Freire ensinar exige humildade, a construção de novos conhecimentos não pode ser um ato arrogante e não existe diálogo sem humildade.

Ensinar exige o reconhecimento de nossas limitações. De acordo com Freire, a arrogância nega não só a generosidade, mas também a humildade, que não é virtude dos que ofendem tampouco dos que se vangloriam por sofrer humilhação. A humildade ajuda a pessoa a reconhecer que ninguém sabe tudo nem ignora tudo, e sem ela dificilmente ouviremos o outro com respeito.

Segundo Santos (2010), “é em meio à humildade, à amorosidade, à coragem, à tolerância, à competência, à capacidade de decidir, à segurança, à eticidade, à tensão entre paciência e impaciência, à parcimônia verbal que o educador contribui para tornar a escola alegre e humana”.

E o que significa a humildade para os líderes? Sempre temos que assumir alguma liderança em determinado momento de nossas vidas, seja em casa com a família, como pai ou mãe; no local de trabalho, com algum cargo de chefia; na escola, como diretor, professor, treinador ou líder de classe; enfim, sempre existe alguma ocasião em que assumimos uma liderança. Mas que tipo de liderança? Como lideramos? 

Considerando a liderança servidora, a primeira preocupação do líder é a de servir, a fim de ajudar as pessoas a se tornarem melhores, a alcançar plenamente o seu potencial. Uma das características desse tipo de líder é a capacidade de persuadir, de procurar sempre convencer e nunca coagir ou constranger ninguém. A humildade também é uma das características do líder servidor.   

Guareschi, Scariot e Paulata (2011) afirmam:

Os líderes humildes não sofrem nenhum complexo de inferioridade. Eles sabem que não têm todas as respostas e aceitam isso com naturalidade. Os lideres humildes não se iludem com quem eles realmente são. Eles sabem que vieram ao mundo sem nada e que partirão sem nada e, por isso mesmo, aprenderam a se controlar e a não serem egoístas. Seu foco não está nos benefícios corporativos, na politicagem interna e muito menos no poder, isto é, na corrida para quem vai ocupar a sala maior. Eles preferem se concentrar nas responsabilidades inerentes a liderança.

 

A mediação de conflitos é uma técnica utilizada pela Justiça para a resolução de questões familiares, buscando restaurar a harmonia. Consiste em induzir as pessoas interessadas a solucionarem um problema, a encontrarem soluções satisfatórias, preservando o relacionamento entre elas; favorece a exposição de sentimentos, facilita a comunicação e a negociação. Exige a participação de um mediador, que  necessitará de humildade para exercer sua função nesses processos, além de paciência, integridade, imparcialidade, conhecimento, docilidade, vigor, crença nos valores humanos, entre outras.

A justiça restaurativa é o modelo de justiça que visa à conciliação na resolução de conflitos. E a humildade é um dos valores que conduzem esse modelo de justiça, assim como o respeito, a honestidade, a interconexão, a responsabilidade e a esperança. Contempla o diálogo entre os participantes e a participação da comunidade. As práticas restaurativas podem ser utilizadas em diversos tipos de crime, entretanto no Brasil ainda está restrita a crimes de menor potencial ofensivo.  

O que podemos entender por falsa humildade? Surge quando valores como a arrogância ou a vaidade se escondem por trás de atos ou palavras que expressam o valor humildade. Quando alguém tenta dissimular a verdade, caracteriza-se a falta de autenticidade, como comprova Lopes (1996):

Em suas cartas, afirmava não viver na corte do rei, mas privar de sua própria casa. Por falsa humildade, pedia aos amigos que sua felicidade não fosse divulgada entre seus amigos, estratégia mais que explicita para tornar suas correspondências “confidenciais” em notícias quase instantâneas. 

  

“Essa falsa humildade é comodismo, assim, tão humildezinho, vais abandonando direitos que são deveres”. Nessa frase Josemaria Escrivá enfoca a falsa humildade como desculpa para não assumir responsabilidades, onde o comodismo abre mão de direitos e deveres. No entanto existe uma oração que pode ser de grande contribuição para o fortalecimento da verdadeira humildade, que diz o seguinte: “Concede-me, Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não posso modificar, coragem para modificar as que eu posso e sabedoria para distinguir uma das outras”. Substituindo a palavra serenidade por humildade, aceitaremos com mais facilidade as coisas que não podemos modificar.

A humildade é também um requisito necessário ao bom político. Pesquisa recente aponta a deficiência na formação de políticos, enfocando a falta de visão de futuro deles, assim como a dificuldade na implantação de inovações, o descontinuísmo das gestões de poder, entre outros fatores. Porém a falta de humildade leva alguns políticos a construírem obras, muitas vezes de elevado custo, com o mínimo de benéficos à população, para aparecer, sem priorizar as reais necessidades da população; eles são movidos pela vaidade, pelo orgulho e por interesses pessoais.

O conhecimento teórico sobre a humildade pode favorecer o aprofundamento dessa virtude no indivíduo, como também o conhecimento exato de suas limitações. Portanto a humildade é uma virtude que exige autoconhecimento, deve ser guiada pela razão e favorece a ressignificação dos valores. A consciência de si mesmo é adquirida pelo ser humano lentamente, à luz de um trabalho interior que o conduz à humildade e facilita a felicidade.

Allan Kardec já dizia: “Estude a si mesmo, observando que o autoconhecimento traz humildade e sem humildade é impossível ser feliz”. Madeiros 2006, cita uma frase de Escrivá que diz: “o conhecimento próprio leva-nos como que pela mão à humildade”. Quando o homem entra em conformidade com o que ele é, aceitando suas fraquezas e fortalezas, caminha em direção à alegria, à paz, a momentos de felicidade.

Se seguíssemos o exemplo de Jesus, deveríamos ser mansos e humildes de coração. Os ensinamentos que Ele nos deixou são um convite à felicidade, mas ainda requer da humanidade uma mudança de valores. O orgulho e a vaidade são obstáculos para a felicidade, pois muitas vezes impõem um elevado nível de exigências centradas nos valores materiais, como a aquisição de objetos supérfluos, desprovidos de sentido. Enquanto isso, a humildade facilita o acesso à felicidade, centra-se nas coisas essenciais da vida, na simplicidade. 

Em 1948, foi fundado o Conselho Mundial das Igrejas (CMI), que tinha como proposta estabelecer uma aliança ecumênica com o objetivo de trabalhar para o Reino de Deus. Em 1972, em reunião no Brasil, o CMI declarou que “a palavra ajuda não está conseguindo mais transmitir relação de solidariedade humana, porque existe nestas relações entre os povos algo fundamentalmente errado: faltam justiça, amor e humildade” (SILVA, 2011). Então, as igrejas foram conclamadas a incluir em suas agendas a ideia de “Justiça, amor e humildade como frutos do Espírito”.

Dizem que a humildade é estranha porque, no momento em que achamos que a temos, já a perdemos. Mas podemos nos aproximar dela compreendendo que não somos melhores que ninguém, como dizia Freire. Para Guareschi, Scariot e Paulata (2011), o ser humano alcançará isso, distanciando-se mais do materialismo e lembrando que veio ao mundo sem nada e partirá dele sem nada. Essas são dicas que favorecem o caminho da humildade.

 

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Sugestão para leitura complementar: Programa Cinco Minutos de Valores Humanos para a Escola, Sugestão para leitura complementar: Programa Cinco Minutos de Valores Humanos para a Escola, da autoria de Saara Nousiainen, 2008. O programa está disponível em  <http://www.cincominutos.org>. Neste endereço, você encontra o tema Humildade enfocado para jovens e crianças nas seguintes aulas:

·       1º Módulo 1º Semestre: aula 99 – Jesus x humildade.

·       2º Módulo 1º Semestre: aula 21 – A lição da caveira; aula 68 – Dois galos.

·       2º Módulo 2º Semestre: da aula 22 à 25 – Superioridade.

·       3º Módulo 2º Semestre: aula 34 – Valor de verdade e valor de mentira. 

 

 

  

Referências Bibliográficas

 

Dalcastagné, R. Sobre encomendas e virtudes. Itinerários, UNESP, Araraquara, SP – Brasil,17:291:294, 2001. Disponível em: <http://piwik.seer.fclar.unesp.br/itinerarios/article/download/3470/3242>. Acesso em: 17 out. 2010.

 

Guareschi, E.; Scariot, T.; Paulata, T. Liderança: Diferencial imprescindível nos tempos atuais. Secretariado Executivo em Revist@;  UPF - Universidade de Passo Fundo, RS – Brasil, 2011. Disponível em: <http://www.upf.br/seer/index.php/ser/article/download/1763/1172>. Acesso em: 18 out. 2010.

 

Lopes, M. A. Os intelectuais no século da luzes. Síntese - Revista de Filosofia. Brasil. Vol. 23, n. 75, 1996. Disponível em: <http://faje.edu.br/periodicos/index.php/Sintese/article/view/967/1399>. Acesso em: 17 out. 2010.

 

Madeiros, F.M.M. Análise e Interpretação de Imagem Médica com o apoio de agentes de Softwere. Dissertação da Universidade do Minho. Braga-Portugal, 2006. Disponível em: <http://hdl.handle.net/1822/5979>. Acesso em: 18 out. 2010.

 

Santos, T.R. O professor ideal segundo as proposições de Paulo Freire. Caderno da Escola de Educação e Humanidades, Brasil, n. 5, 2010. Disponível em: <http://apps.unibrasil.com.br/revista/index.php/educacaoehumanidades/article/view/519>. Acesso em: 17 out. 2010.

 

Silva, E. 2011. O Conselho Mundial de Igrejas e a Trajetória do Ecumenismo no Brasil. Anais dos Simpósios da ABHR, Juiz de Fora, MG – Brasil. Vol. 12, jun, 2011. Disponível em:

<http://www.abhr.org.br/plura/ojs/index.php/anais/article/download/232/166>. Acesso em: 18 out. 2010.

 

 

 

 

 

 

8. Gratidão                                       

“Aprendi que deveríamos ser gratos a Deus por não nos dar tudo que lhe pedimos.” (William Shakespeare)

William Shakespeare convida-nos a refletir sobre a gratidão até mesmo pelo que não recebemos. Lembra-nos que as dificuldades da vida muitas vezes nos ajudam a desenvolver a nossa capacidade de superação, e por isso devemos ser gratos. Mas o que compreendemos por gratidão?

A gratidão pode ser entendida como um ato de reconhecimento por alguém que prestou um ato benéfico ou uma ajuda. Também é compreendida como uma emoção relacionada a um sentimento de dívida, que vem acompanhado por um desejo de retribuição, propício ao desenvolvimento de um ciclo contínuo de trocas de benfeitorias. Portanto favorece o bem-estar emocional e social das pessoas.

Considerada uma virtude moral, a gratidão está relacionada à capacidade do indivíduo de ter empatia. Apontada por alguns filósofos como um ingrediente necessário para a formação da personalidade moral, é também considerada a virtude das almas nobres. Estudos mostram que até os animais se lembram de pessoas que cuidaram deles e demonstram gratidão, porém a gratidão não faz parte dos comportamentos que são movidos pela retribuição e sim pela benevolência.

A exploração do sentimento de gratidão do outro pode ser contemplada em comportamentos que não vislumbram uma benfeitoria e sim uma retribuição, ou seja, objetiva o benefício próprio. François La Rochefoucauld dizia: “A gratidão da maioria dos homens não passa de um desejo secreto de receber maiores favores”. O reconhecimento e a retribuição de uma benevolência são algo espontâneo. O fato de não existir o “direito” a uma retribuição é o que faz da gratidão uma virtude moral.

Não existe virtude em práticas a partir das quais se espera a retribuição, a intenção do retorno expressa uma atitude egoísta e não altruísta. Por exemplo, um presente pode ser uma forma de agradecer, ou uma benevolência, no entanto dar um presente esperando receber outro de volta é uma atitude que não exprime benevolência, portanto, nesse ato de presentear, não existe virtude.  

As pessoas gratas são mais agradáveis, flexíveis e mais propensas ao perdão. Contemplam estados psicológicos positivos de contentamento, esperança e alegria. Entendem que o seu bem-estar depende também dos outros, por conseguinte valorizam as relações e respondem mais positivamente às dificuldades da vida. Na ausência do reconhecimento e da reciprocidade das ações benevolentes,  manifesta-se a ingratidão.

As pessoas ingratas tendem a supervalorizar os bens materiais, a não pensar ou pensar pouco nos outros, por isso não são generosas com aqueles que são benevolentes para com elas. A ingratidão, às vezes compreendida como uma falha moral, é retratada na fábula “O lobo e a cegonha”, quando mostra a ingratidão do lobo para com a cegonha. O lobo prometeu uma recompensa para quem o ajudasse a se desengasgar; a cegonha, com seu longo bico, o ajudou tirando o osso que estava preso em sua garganta, mas o lobo, além de não dar a recompensa prometida, ainda achava que ela é que devia ser grata por ele não a ter matado.

A postura de constante insatisfação com a vida e com nossa condição no mundo também pode ser entendida como ingratidão, como enfoca a fábula “A tartaruga e os dois patos”, que nos faz refletir inclusive sobre as possíveis e tristes consequências da ingratidão. A fábula conta que a tartaruga desejou sair daquela vidinha de tartaruga e conhecer o mundo, queria viajar como os pássaros; então pediu ajuda a um casal de patos que resolveram ajudá-la, carregaram a tartaruga presa por sua mordida a pedaço de pau, porém, quando estava no alto, ela acabou se soltando e se arrebentou no chão.   

La Fontaine, em suas fábulas, também enfoca o vínculo entre a inveja e a ingratidão. O não saber ser grato pelo que somos e nem pelo que temos nos aproxima do sentimento de inveja, ou seja, do desejo de ser como o outro ou de ter o que o outro tem. A ingratidão pela nossa condição no mundo e a inveja são enfocadas também na fábula da rã que queria igualar-se ao boi. Essa narrativa fala da insatisfação de uma rã com a sua natureza e da inveja que sentia do boi.  

A culpa e a ingratidão são sentimentos diferentes, mas podem ser confundidos em determinadas situações. Exemplo disso ocorre quando um jovem sai de casa em busca da sua independência de forma responsável e consciente e não recebe apoio da familia; ele pode até ser acusado de ingrato, como se estivesse retribuindo com dor todo o amor que recebeu da familia, e isso pode realmente fazê-lo se sentir um ingrato. Mas, se o jovem reconhece o valor da família e não pode evitar a dor dessa separação porque precisa seguir o seu caminho, isso não é ingratidão, no entanto o sentimento de culpa pode fazê-lo pensar que sim.

A culpa também se aproxima da gratidão, como enfocada numa pesquisa sobre a reabilitação psicológica e social no transplante de órgãos. Há a culpa de quem recebe um órgão advinda do medo de estar se beneficiando com a morte do outro, ou de estar prejudicando alguém, e a gratidão por estar sendo beneficiado com a doação. Para Tavares (2004), quando “a ‘culpa original’ consegue ser elaborada, dependendo do processo primário e secundário do pensamento, e portanto o processo de reparação é bem sucedido em plenitude, é possível a emergência da gratidão”.  

Nos primórdios da organização social, a gratidão é enfocada na partilha dos alimentos, o que deu origem a novas formas de relacionamento, conservadas e transmitidas de geração em geração. Trata-se de atitudes que foram aprendidas, que fazem parte do nosso processo de socialização, portanto a gratidão faz parte do processo de humanização do ser, da sua evolução.

A espécie humana é a única que mantém os vínculos familiares por toda a vida. Na familia, a gratidão fortalece os vínculos, favorece o sentimento de amor. Na sociedade, é um sentimento desejável que contempla a generosidade e estimula o desenvolvimento da moralidade.  Além de promover bem-estar,  a gratidão favorece a formação moral do indivíduo.

De acordo com Pieta e Freitas (2009), pessoas que se sentem regularmente gratas aos outros tendem a sentir-se amadas e cuidadas. O sentimento de gratidão aumenta a resiliência, a saúde física e a qualidade de vida. As pessoas mostram-se mais entusiásticas, determinadas, atentas, mais generosas e atenciosas para com os outros. E pesquisas indicam que a expressão da gratidão se desenvolve ao longo da infância.

No Programa Cinco Minutos de Valores Humanos para a Escola (Nousiainen, 2008),  observa-se o estímulo à polidez e a gratidão em diversas aulas. A autora está sempre enfocando a importância do bom comportamento, de se cumprimentar as pessoas, de agradecer, de ser educado e gentil. Pieta e Freitas (2009) destacam que, segundo La Taille, “a polidez antecede a moral e desempenha um papel na gênese desta, pois é por meio das regras de polidez que a criança pode começar a compreender certas virtudes, por exemplo, o 'obrigado' aponta para a gratidão'”.

A revolta e a gratidão se encontram nas tragedias; enquanto uns se revoltam com a morte de familiares, outros são gratos por estar vivos. Tannhauser (2010) relata a experiência de um psicanalista que observa a dor, a revolta, a negação dos pais que estão com seus filhos hospitalizados, correndo risco de vida, ou que os perdem; o sentimento de gratidão também é observado no ambiente hospitalar.

A dor de perder um ente querido é inevitável, mas a superação dessa dor depende muito da postura que cada um escolhe assumir diante da vida. No caso de uma tragédia em que muitas famílias perdem casas, empregos, filhos, pais, etc. Depois do primeiro momento, há aqueles que ficam presos à dor e ao passado por muito tempo, lamentando o que perderam, enquanto outros conseguem se reerguer com mais facilidade, pois são gratos pelo que restou e pelos que ainda estão vivos. Quem assume essa postura de gratidão realmente tem mais facilidade de superar as dificuldades, de retomar a vida e vislumbrar novos caminhos.

Em uma pesquisa sobre arteterapia e os elementos da natureza, Moura (2006) expõe técnicas chinesas que utilizam como subsídios os recursos naturais, propondo a integração do homem com o universo, trabalhando na captação de boas vibrações e utilizando-as como instrumento para liberar bem-estar e equilíbrio. Também ressalta a busca de atitudes positivas e, entre outras, recomenda “ter gratidão por tudo”.

Portanto, a gratidão deve estar presente inclusive na nossa relação com a natureza. Quando desperdiçamos recursos naturais, expressamos uma imensa ingratidão pela natureza, e posteriormente as consequências dessa ação vão aparecendo. Está surgindo a consciência de que precisamos nos aproximar da natureza, encontrar formas de nos integrar a ela até conseguirmos entender que somos parte dela e que ela é parte de nós. O cuidado com o meio ambiente pode ser uma forma de demonstrarmos a nossa gratidão pela natureza, de retribuir a vida que ela nos oferta.

A gratidão, de uma forma geral, pode ser expressada das mais diversas formas, na leveza de uma poesia, na melodia de uma música, na delicadeza de um presente, no nome de uma criança quando se escolhe para homenagear alguém querido e até na gratidão daqueles que tentam se aproximar da realidade através da pesquisa. Mas, para expressar a gratidão, o ser humano precisa ser grato.

Khalil Gibran disse: “Aprendi o silêncio com os faladores, a tolerância com os intolerantes, a bondade com os maldosos; e, por estranho que pareça, sou grato a esses professores”. E nós somos gratos? Temos a postura de uma pessoa grata? Agradecemos pelo que temos? Pela saúde, pela paz, pelo conforto do lar, pelo alimento, pelos amigos e pela família? Como, quando e a quem agradecemos pela Vida?

Aprendi o silêncio com os faladores, a tolerância com os intolerantes, a bondade com os maldosos; e, por estranho que pareça, sou grato a esses professores.” (Khalil Gibran).

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Sugestão para leitura complementar: Programa Cinco Minutos de Valores Humanos para a Escola, da autoria de Saara Nousiainen. O programa está disponível em  <http://www.cincominutos.org>. Neste endereço, você encontra o tema Gratidão enfocado para jovens e crianças na seguinte aula:

·       3º Módulo 1º Semestre: aula 23 – Comunidade do Jacaré – Parte 6.

 

 

 Referências Bibliográficas

Groth, C. I.; Strieder, R.; 2010. No vir-a ser da construção social do ser humano: expectativas de interdependências e diversidade.  Visão Global, Joaçaba,  Santa Catarina – Brasil, Vol. 3, N. 2, p. 375-396, jul./dez.,  2009. Disponível em:

 <http://piwik.seer.fclar.unesp.br/itinerarios/article/download/3470/3242>.  Acesso em: 20 out. 2010.

 

Moura, E. S. A. Arterapia em relação com os elementos da natureza. Moografia apresentada à Universidade Potiguar – UnP, Natal, RN – Brasil. Mar, 2006. Disponível em:

<http://www.alquimyart.com.br/monografias/4/2006_natal_rn_MOURA_eurimar_sousaaguiar.pdf>. Acesso em: 26 out. 2010.

 

Pieta. M.A.M.; FREITAS, L. B. L. Sobre a gratidão. Arquivos Brasileiros de Psicologia. [Versão online], Rio de Janeiro – Brasil, V.16, N.1, abr., 2009. Disponível em:

<http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1809-52672009000100010&script=sci_arttext&tlng=en>. Acesso em: 20 out. 2010.

 

Tannhauser, K. A presença de um psicanalista em um CTI pediátrico. Primórdios - CPRJ. Rio de Janeiro – Brasil, V. 1, N. 1, p. 57-71, 2010. Disponível em: <http://www.cprj.com.br/primordios/57-71_a_presenca.pdf>.  Acesso em: 26 out. 2010.

 

Tavares, E. A vida depois da vida: Reabilitação psicológica e social na transplantação de órgãos. Análise Psicológica, Lisboa-Portugal, n. 4, p. 765-777, 2004. Disponível em: <http://www.scielo.oces.mctes.pt/pdf/aps/v22n4/v22n4a10.pdf>. Acesso em: 26 out. 2010.

 

 

 

 

 

 

9. Responsabilidade                         

“É uma falta de responsabilidade esperarmos que alguém faça as coisas por nós.” ( John Lennon)

 

John Lennon é uma personagem da História que nos leva a pensar que somos os responsáveis por nossas vidas, portanto não podemos esperar que os outros façam as coisas por nós; também são de nossa responsabilidade as consequências, os resultados dos nossos atos, ou seja, “a culpa” das nossas ações deverá ser sempre nossa, sejam quais forem elas, positivas ou negativas.

Mas o que é mesmo a responsabilidade? Responsabilidade é a qualidade da pessoa responsável, daquele que responde não só pelas consequências dos seus atos, mas pelos atos daqueles por quem ele é responsável e pelo que lhe pertence. Responsabilidade implica em dever e obrigação, mas está relacionada tanto as nossas escolhas, como a outros valores e ao conhecimento.

Há quem diga que a responsabilidade só pode ser atribuída se existe escolha, se é um ato espontâneo, pois, se não há livre-arbítrio, não pode haver responsabilidade. Este valor se aproxima do valor honestidade no momento de assumimos as consequências dos nossos atos; existem pessoas negando o que fazem ou alegando falta de conhecimento para não assumir suas responsabilidades.

O “laranja” pode se caracterizar pela falta de conhecimento, é aquela pessoa que pode  transportar uma mercadoria ilegal, como droga, sem ter conhecimento do que leva ou da ilegalidade de seu ato; é alguém que é manipulado por outro que não quer assumir o risco e/ou a responsabilidade da ação. Como defesa, algumas pessoas, mesmo tendo consciência de seus atos, preferem assumir o papel de “laranja”, negando o conhecimento, para não assumir a responsabilidade. Nessa perspectiva, a falta de responsabilidade implica também na falta de honestidade.

O “laranjismo” se tornou uma prática muito comum tanto no tráfico de drogas como na indústria da corrupção. A utilização do “laranja” passou a ser comum entre empresários e políticos corruptos, pois ele é também aquela pessoa que deve atribuir a si mesmo bens de outra pessoa que lhe paga para se dizer proprietário desses bens. Então a figura do “laranja” é peça importante no jogo da corrupção, para esconder a origem de verbas ilícitas e assim não assumir a responsabilidade de seus atos.

A responsabilidade civil implica na obrigação da pessoa de ressarcir a outrem um dano causado por ela, consiste na efetivação da reparação do problema, ou seja, é a aplicação de medidas que obrigam uma pessoa a reparar um dano, por um ato por ela mesma praticado. Essa responsabilidade se aplica também às pessoas como profissionais, portanto, quando um profissional não cumpre com suas obrigações, deveria responder por faltar com o que é de sua responsabilidade. 

Cada profissional tem seus direitos e deveres estabelecidos na regulamentação de sua profissão. Esses deveres fazem parte das responsabilidades próprias da atividade profissional.  De acordo com Cunha et al. (2011), a  “regulamentação de uma profissão estabelece um conjunto de deveres e prerrogativas para o profissional. Incide sobre os mercados de trabalho, definindo campos de atuação, procedimentos e atividades de exercício restrito”.

A falta de clareza ou detalhamento na regulamentação de uma profissão pode acarretar conflitos na hora de apurar responsabilidades, assim como a incoerência entre a regulamentação das profissões, como se pode observar no caso dos profissionais da saúde. Quem pode prescrever medicamentos no Brasil são só os médicos? Os dentistas podem prescrever medicamentos? E enfermeiros também podem prescrever? 

A Lei nº. 581, de 1966, estabelece: “Compete ao cirurgião-dentista: II – prescrever e aplicar especialidades farmacêuticas de uso interno e externo, indicadas em odontologia.”. A Lei nº. 7.498, art. 11, de 1986, estabelece: “O enfermeiro exerce todas as atividades de enfermagem cabendo-lhe: II – como integrante da equipe de saúde: prescrição de medicamentos estabelecidos em programas de saúde pública e em rotina aprovada pela instituição de saúde”.

Mas o Conselho Federal de Medicina, através do processo nº. 24/2001, estabelece:

O diagnóstico e a prescrição de medicamentos são atribuições precípuas dos médicos, constituindo-se em ato médico específico; não pode o médico delegar, a outros profissionais, atribuições próprias da Medicina, nem tampouco acumpliciar-se com aqueles que a exercem de forma ilegal.

 

Cunha et al. (2011) chamam a atenção para a responsabilidade dos médicos e promove uma reflexão que deveria se estender a todos os profissionais da área da saúde ou vinculados a ela. Com o propósito de minimizar os problemas dos pacientes que se submetem a tratamento médico, não conseguem bons resultados, e ninguém sabe por que isso aconteceu nem de quem é a responsabilidade no fracasso do tratamento. Será o paciente que não segue as orientações médicas? Os médicos erraram o diagnóstico, o medicamento, ou não acompanharam o tratamento? Ou o farmacêutico vendeu o medicamento errado? 

Hoje, no Brasil, as farmácias demonstram grande interesse em vender medicamentos conhecidos como “similares” ou/e “genéricos”. Por quê? Para favorecer os clientes? Para receber comissão em cima das vendas desses medicamentos? Para ser agraciadas com os benefícios oferecidos pela indústria farmacêutica? Qual é a proposta dos medicamentos similares e genéricos? Quem está se responsabilizando por ela? Para solucionar problemas, é importante identificar tanto as causas como os responsáveis.

A questão da responsabilidade profissional merece mais atenção não só na saúde, mas em todas as áreas. Quando existem vários profissionais envolvidos em um dano, surgem os conflitos pela dificuldade que muitos têm de assumir a sua parcela de responsabilidade no caso. Muitas vezes se observa uma tendência de todos quererem jogar a responsabilidade nas costas de um só para se eximir da sua, no entanto uma pessoa responsável assume as consequências de seus atos, por menor que seja sua participação no dano causado a alguém, sejam quais forem as consequências.

Qual é a data de validade de uma habitação? Teoricamente não existe, no entanto, aqui no Brasil, um apartamento com dez ou vinte anos é considerado velho pelas péssimas condições em que se encontra o prédio, com problemas de infiltração, parte elétrica comprometida, acabamento de péssima qualidade, enfim. Se o problema é do tempo (apartamento velho), como alguns tentam justiçar, então as habitações deveriam ser entregues com data de validade. Porém essa é mais uma desculpa usada para que os profissionais da construção civil e os vinculados a ela não assumam as responsabilidades de seus atos.

Na área educacional, os problemas decorrentes da falta de responsabilidade se agravam ainda mais, pois os danos recaem sobre as crianças. Os pais esperam que as escolas eduquem as crianças, as escolas acham que o dever de educar os filhos é dos pais, e todos juntos lamentam ter que conviver com crianças mal-educadas. Muitas vezes dentro de casa acontece o mesmo, os pais não querem assumir as suas responsabilidades no âmbito familiar e, quando surgem os problemas, ficam jogando a culpa uns nos outros. Assim, a falta de responsabilidade generalizada vai minando a vida do cidadão em todos os aspectos.

Responsabilidade implica também nas consequências das palavras e não só das ações. Uma palavra pode causar mais dano que uma ação, portanto exige responsabilidade. Os programas de rádio e televisão são responsáveis pela sua programação e devem responder pelos danos que podem causar aos seus ouvintes e telespectadores, assim como as igrejas que tentam conduzir seus fiéis através de atos e palavras deveriam responder pelos danos que podem causas a eles.

A legislação não está conseguindo proteger o cidadão das igrejas que estão cometendo danos contra a sociedade, e, quando a mídia denuncia, termina sendo prejudicada pelos poderes que defendem a liberdade de culto e de expressão.  As igrejas, com seus programas de rádio e televisão, cometem verdadeiros crimes contra a saúde pública, afetando principalmente a população mais carente e menos esclarecida. E onde está a censura desses programas? Então às igrejas não se pode causar danos, no entanto elas seguem causando danos a milhares de pessoas. Quais são as responsabilidades do Poder Legislativo e do Poder Judiciário nesses casos? 

Como o volume de dinheiro que circula em torno dessas igrejas é alto, é provável que não exista interesse em identificar os responsáveis. Gomes (2011) tem razão quando diz:

 

Agora, a censura mesmo, sob o meu ponto de vista, ela é de interesse político ou interesse econômico e vai continuar existindo sempre, porque quem estiver no poder vai querer manter e ditar as regras do poder, por meio da manipulação da informação para tirar proveitos escusos ou não.

 

O cumprimento de um compromisso é um ato de responsabilidade, pois o compromisso paz parte das nossas obrigações, representa um acordo que deve ser respeitado, seja no âmbito profissional, religioso, amoroso, familiar, ou qualquer outro. Assumir um compromisso significa se responsabilizar pelo que ficou combinado e pelas suas consequências.

Valores humanos como honestidade e justiça se aproximam do valor responsabilidade. Uma pessoa que procura ser justa e honesta também se esforça para cumprir seus compromissos e assume suas responsabilidades. Entende a dimensão da responsabilidade como a dimensão do seu ser; se é capaz de influenciar alguém, então ela também é responsável por esse alguém; se fazemos parte de uma sociedade, também somos responsáveis por ela.

A reflexão favorece o desenvolvimento da responsabilidade. Criar o hábito de pensar antes de agir, de refletir sobre as possíveis consequências de uma determinada atitude pode ser uma forma de evitar danos ao próximo, portanto é um ato de responsabilidade. E ser responsável é obrigação de cada cidadão que deseja uma vida mais saudável e harmoniosa para si e para a comunidade.

 

 

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Sugestão para leitura complementar: Programa Cinco Minutos de Valores Humanos para a Escola, da autoria de Saara Nousiainen, 2008. O programa está disponível em  <http://www.cincominutos.org>. Neste endereço, você encontra o tema Responsabilidade enfocado para jovens e crianças nas seguintes aulas:

·       1º Módulo 1º Semestre: aula 78 – Pobreza x preguiça; aula 87 – Mariazinha X responsabilidade

·       1º Módulo 2º Semestre: aula 28 – Responsabilidade; aula 38 – Valorizar o estudo.

 

  

Referências Bibliográficas

Cunha, C. L. F. et. al. A responsabilidade civil do médico e o ato médico. Cad. Pesq. , São Luis – Brasil, V. 18, n. 1,  jan./abr. 2011. Disponível em: <http://www.periodicoseletronicos.ufma.br/index.php/cadernosdepesquisa/article/viewFile/412/263>. Acesso em: 30 out. 2010.

 

Gomes, M. R; Paganotti, I; Cabral, N. L. Contra censura e indenizações, nova regulamentação para a mídia. Rumores - Revista de comunicação, linguagem e mídia, São Paulo – Brasil, Vol. 1, n. 9 2011. Disponível em:

<http://200.144.189.42/ojs/index.php/rumores/article/viewFile/7678/7067>. Acesso em: 04 out. 2010.

 

 

 

 

 

 

 

10. Assertividade  

O comportamento que torna a pessoa capaz de agir em seus próprios interesses, a se afirmar sem ansiedade indevida, a expressar sentimentos sinceros sem constrangimento, ou a exercitar seus próprios direitos sem negar os alheios, é denominado de comportamento assertivo.” (Alberti & Emmons)

 

Assertividade é uma virtude que implica diretamente num comportamento mais favorável à boa convivência, pois faz parte da arte de uma comunicação clara e objetiva. É saber dizer o “sim” e o “não” no seu momento devido e na forma mais adequada, portanto contempla o equilíbrio e a flexibilidade. Uma pessoa assertiva não é agressiva  nem submissa, é honesta, atenciosa, transparência, e tanto sabe se respeitar como respeita as demais.

Indicativa de amadurecimento, a assertividade  favorece a resolução de problemas, contempla a habilidade de intermediar, de facilitar processos, de encontrar soluções mais adequadas e obter melhores resultados. A virtude da assertividade está cada vez mais valorizada no âmbito institucional, como requisito do perfil de um bom profissional.

Quando uma pessoa tem dificuldade para expressar os seus sentimentos, normalmente a causa é proveniente de experiências negativas que inibiram a sua expressão, indicador de uma pessoa de comportamento não assertivo, que a qualquer momento pode apresentar falha na sua comunicação, no receber ou transmitir informações. Os fatores que incidem no que uma pessoa sente, pensa e faz implicam no comportamento dela, ou seja, num comportamento assertivo ou não.  

Portanto é indiscutível a importância da família para o desenvolvimento de um comportamento assertivo. Martínez (2009) afirma que é necessário trabalhar com os pais as habilidades de comunicação com os filhos, os processos de resolução de conflitos, as estratégias para estabelecer limites e regular o comportamento das crianças, favorecendo a autoestima e o comportamento assertivo.

A depressão, cada vez mais presente entre jovens e crianças, assim como a agressividade entre outros problemas decorrentes de transtornos emocionais, muitas vezes sofre fortes influências do comportamento dos pais, o que poderia ser minimizado, ou até mesmo evitado, com o aprendizado de uma comunicação assertiva. Martínez (2009) afirma que “os problemas emocionais dos pais, como a depressão, influenciam meninos, meninas e adolescentes, gerando para os mesmos modelos inadequados ou práticas negativas para o seu desenvolvimento”.

A boa comunicação a que se refere a assertividade inclui tanto o meio como o fim desse processo, ou seja, consiste em uma comunicação que atinge seus objetivos mas sem causar danos; envolve o saber ouvir, o saber falar, o momento adequado, a entonação da voz, a postura, a influência de uma fala apropriada e o cuidado com os sentimentos e o bem-estar do próximo.

Nas relações entre pais e filhos, algumas vezes se usa a agressividade, que permite atingir os objetivos desejados, mas pode deixar mágoas, traumas, e contribuir para outros comportamentos não assertivos no futuro. Fazer escolhas e responder pelos filhos pode ser prático, mais fácil para os pais, no entanto também pode representar a desvalorização da criança como pessoa, gerar insegurança, dependência e favorecer a baixa autoestima dela. Numa comunicação assertiva, os pais auxiliam os filhos a pensarem, a fazerem suas escolhas e a encontrarem suas respostas em vez de fazer por eles, ou seja, educam sem causar danos.

O equilíbrio é fundamental na educação, não se deve contribuir para um comportamento agressivo, da mesma forma que não se deve contribuir para um submisso. O comportamento submisso, ao contrário do agressivo, leva em consideração os direitos e os sentimentos dos outros, sem considerar os seus, levando a pessoa a evitar  situações ou a não reagir diante de um comportamento agressivo. Os pais que possuem um comportamento assertivo educam seus filhos orientando e contribuem para que estes também desenvolvam comportamentos assertivos.

De acordo com Leme (2004), “o comportamento assertivo muitas vezes precisa ser ensinado, tanto no conteúdo como na forma: a expressão de pensamentos e sentimentos perde força se não for feita em um tom de voz firme e contato visual com o interlocutor”. Pais e professores são modelos de comportamento para as crianças, portanto é indiscutível a colaboração deles para o desenvolvimento de comportamentos mais assertivos.

A assertividade é fundamental para o bom convívio, implica na forma mais adequada de manifestar opinião, concordar e discordar, fazer e recusar pedidos, pedir desculpas e admitir falhas, expressar desagrado, pedir mudança de comportamento do outro e lidar com críticas. Um casal assertivo consegue expressar abertamente os seus pensamentos, sentimentos e opiniões, contribuindo para um ambiente de paz e harmonia no lar.     

De acordo com Aguilar, Robayo e Urrego (2011), depois de três casos de suicídio entre os estudantes, uma universidade da Colômbia resolveu avaliar um programa que nos faz refletir, entre outros fatores, sobre a importância do comportamento  assertivo  para diminuir os riscos de depressão entre os jovens.

Pesquisa informa que os animais desenvolvem um padrão de conduta e de mudanças semelhante ao dos deprimidos, estado que recebeu o nome de desamparo ou impotência aprendida. Isso nos leva a pensar que a qualidade de vida da pessoa depende em parte de como ela aprende a viver, do que lhe foi ensinado, se esse ensinamento conduz a um comportamento assertivo ou não, que contribua para que ela se aproxime ou se afaste de uma vida saudável. 

O equilíbrio emocional, a inibição ou o desenvolvimento de talentos e habilidades dependem muito do contexto em que a pessoa está inserida. De acordo com Prado, Fleith e Gonçalves (2011), hoje, “entende-se que o papel social desempenhado pela mulher e os padrões de desenvolvimento e expressão de suas habilidades e talentos são promovidos ou inibidos essencialmente por fatores relacionados ao contexto em que vivem.”. Entende-se, assim, que o comportamento assertivo do entorno em que se vive favorece o desenvolvimento das potencialidades do ser humano.

Na atualidade, a ausência de comportamentos assertivos é constatada com a violência, nos conflitos e na dificuldade que as pessoas apresentam para se relacionar, fator que interfere negativamente na qualidade de vida delas. Já podemos pensar em medidas para melhorar esse quadro, ou seja, no processo de formação do ser humano, através de uma educação que objetive contribuir com o desenvolvimento de comportamentos mais assertivos.   

Michael Apple dizia: “A temporada de caça a educação continua aberta”. Isso se dá porque nunca falta quem aponte algo de errado com as escolas e na educação. Para não contrariar sua teoria, vamos enfocar a falta de assertividade no âmbito educativo; por parte dos alunos, o problema pode ser constatado com o bullying;  por parte dos professores, pelas suas limitações como mediadores na resolução de conflitos.

Na educação, o comportamento assertivo pode contribuir tanto para uma cultura de paz como para o desenvolvimento de talentos, de potencialidades. Mas precisamos entender que um comportamento assertivo não impõe; sugere, ajuda o outro a pensar, a encontrar as melhores respostas e soluções. Não ameaça ou intimida, convida a refletir sobre as consequências dos atos, a assumir responsabilidades, a tomar consciência das ações, a ter confiança em si mesmo, a se organizar, a ser flexível, tolerante, gentil e determinado.

Rodrigues (2011) nos convida a refletir sobre uma educação que zele pela não desumanização dos valores e da cultura, enfoca a educação para um “novo humanismo”, para a construção de um novo homem. Acredita-se que tal educação não pode deixar de contemplar a educação em valores para a formação de um homem assertivo, que contemple honestidade, solidariedade, respeito, justiça, amor, não-violência, humildade, gratidão e responsabilidade. 

O autor também enfoca os valores morais para uma cultura humanística no decorrer da história:

Assim, esta cultura humanística teria se tornado evidente principalmente no campo das disciplinas “morais”, nos métodos educativos adotados nas escolas de gramática e de retórica, atuando também na formação de dirigentes das cidades-estado, oferecendo-lhes técnicas políticas mais refinadas (RODRIGUES, 2011).

 

Essa proposta educativa  já indicava a assertividade em diversos âmbitos, inclusive na formação de dirigentes. 

De acordo com Rodrigues (2011), já em 1972, no relatório “Aprender a ser: a educação do futuro”, da UNESCO, apontava-se para uma educação que clamava por assertividade. O documento define as características do perfil de um novo homem; apesar de orientá-lo para ser potencialmente senhor do seu destino, não previa a violência como obstáculo para que esse domínio se tornasse real.

Em 2011, seguimos enfrentando a violência e precisando da educação para a formação de um novo homem, um homem assertivo, de valores humanos universais fortalecidos, o qual contribua mais efetivamente com a sua evolução como ser humano. Precisamos ainda de uma proposta humanista que parta desses valores para a formação de cidadãos dignos, íntegros, pacíficos e felizes, capazes de caminhar juntos em direção à construção de uma cultura de paz.

Rodrigues, 2011, também nos conta que de acordo com Paracelso: “A aprendizagem é a nossa própria vida, desde a juventude até a velhice, de fato quase até a morte; ninguém passa dez horas sem nada aprender”. Se ninguém passa dez horas sem aprender nada, pois aprendamos a arte de ser assertivos.

 

Referências Bibliográficas

 

Aguilar, R. N.; Robayo, B. P.; Urrego, B. Y. Programa de prevención de factores de riesgo psicosocial asociados a depresión en estudiantes universitarios. Contextos Revista, Colômbia, jun, 2011. Disponível em: <http://www.contextos-revista.com.co/A4-PROGRAMA%20DE%20PREVENCI%C3%93N%20DE%20FACTORES%20DE%20RIESGO%20PSICOSOCIAL.pdf>. Acesso em: 09 nov. 2010.

 

Leme, M. I. S. Resolução de Conflitos Interpessoais: Interações entre Cognição e Afetividade na Cultura. Psicologia: Reflexão e Crítica, São Paulo – Brasil, 17 (3), pp. 367-380,  2004. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/prc/v17n3/a10v17n3.pdf >. Acesso em: 09 nov. 2010.

 

Martínez, A. C. Pauta de crianza y desarrollo socioafectivo en la infancia. Diversitas: Perspectivas en Psicología, Bogotá - Colombia, Vol. 6, n. 1, pp. 111 – 121, 2010. Disponível em:

 <http://ojs.usta.edu.co/index.php/diversitas/article/viewFile/29/pdf_21>. Acesso em: 07 nov. 2010.

 

Prado, R. M.; Fleith, D. S.; Gonçalves, F. C. O Desenvolvimento do Talento em uma Perspectiva Feminina. Psicologia: Ciência e Profissão, Brasília – Brasil, 31 (1), pp. 134 – 145, 2011. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/pcp/v31n1/v31n1a12.pdf>. Acesso em: 09 nov. 2010.

 

Rodrigues, M. M. Um “novo humanismo” na educação: significados e implicações. Educação Unisinos, Chapecó, SC - Brasil, Vol. 15, num. 2, agosto, 2011. Disponível em:<http://www.unisinos.br/_diversos/revistas/ojs/index.php/educacao/article/view/296>. Acesso em: 10 nov. 2010.

 

 

 

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